consciência holográfica

Wednesday, December 07, 2005

As Crenças e suas Dimensões

AS CRENÇAS E SUAS DIMENSÕES


Luciano Lins
Professor adjunto da UPE.


No contexto das filosofias orientais, costuma-se dizer que vivemos sob o véu da ilusão. A cabala Judaica, tradução mística do ocidente denomina a passagem do ego para a alma, como “honestidade”, sendo está a capacidade ou discernimento para enxergar a verdade.
Todavia, nos indagamos sobre o que se entende por ilusão e verdade nesse contexto. Recorrendo a experiência da psicoterapia podemos ter algumas pistas. Em primeiro lugar, que a verdade não é algo absoluto e que a questão da ilusão não diz respeito a mentira ou falta de verdade, mas que se trata do modo pelo qual tais situações operam na vida psíquica e social das pessoas. Em segundo lugar, que a questão das ilusões diz respeito ao conjunto de crenças de uma comunidade ou indivíduo, que impede a manifestação da experiência em sua plenitude, ao mesmo tempo, resistindo que a forma e o conteúdo sejam postos à prova.
O que são as crenças

Para efeito de nossas reflexões, as crenças são conteúdos aprendidos pelo indivíduo ou comunidade, através do processo de aprendizagem, filtrado pela cultura através da educação e das instituições que a legitimam. O processo de incorporação das crenças é de natureza psicofiolóigca e social, significando que não estamos tratando as crenças como meras abstrações, mas são conotadas holisticamente.
As crenças se constituem como fundamentos de sobrevivência de sociedade e psique humana. A ciência, a religião, a política, ideologia, são conjuntos de crenças, nas quais predominam em determinado momento do tempo. As crenças podem ser modificadas, apesar de suas resistências naturais, e estão organizadas para a preservação do individuo e da sociedade.

Crenças e Dogmas

Quando as crenças podem ser questionadas e até mesmo falseadas, temos uma comunidade equilibrada, caso contrário, pode falar em dogmas, ou seja, crenças que não podem ser questionadas e falseadas, sendo vinculadas através da paixão, que pode ser definida como um tipo de hipnose individual e/ou coletiva, que impede o fluir da experiência humana. Dessa forma a ilusão nada mais é do que a crença dogmática, que impede que outras formulações possam se quer ser pensadas, não admitindo de modo nenhum seu contrário. Nessa situação a crença dogmática se constitui como uma dependência do ponto de vista psicofísico e social, que serve de ancoração a manutenção da coesão social e ao mesmo tempo em que a destrói.

Crença e Religião

De um modo geral, as crenças religiosas são formas aprendidas pela cultura e sociedade. São formas de aprendizagem ministrada pela família, escola, igreja, não levando em consideração as experiências do sujeito em relação a si próprio. Tudo é moldado em função de determinada religião através de crenças dogmáticas, embotando a experiência plena. Nesse sentido, podemos perfeitamente compreender quando Sigmund Freud e outros autores viam com certo despreza a religião, pois ela tende a não permitir que a experiência venha à tona.
Assim quando escrevemos Deus como um ser superior e misericordioso, não estamos nos referindo a nossa experiência, mas a conjunto de aprendizagem que é dogmatizada, através da palavra, leitura e determinados rituais. Quando mencionamos a vida depois da morte, geralmente nos reportamos ao que diz determinadas doutrinas e não a nossa experiência com a morte, que geralmente é negada.

Crença e Ciência

A Ciência também está inserida nesse conjunto de crenças, em que a aprendizagem ocorre através da comunidade Científica, com seus métodos e teorias, que são os organizares e mantenedores de suas doutrinas e que em certo sentido tem sua utilidade para o progresso tecnológico e para a acumulação de certos conhecimentos. Todavia, estamos trabalhando com crenças e não com verdades ou experiências plenas. O que não for considerado cientifico é banido da comunidade acadêmica. Atualmente o dogma cientifico é a “verdade” que predomina no mundo moderno, uma vez que ela produz a materialidade que concretiza o mundo capitalista e o mundo dos aparentes fatos.



Crença e conhecimento

Enquanto as crenças estão baseadas na aprendizagem, o conhecimento nesse contexto é a forma de colocar as crenças em xeque em rituais que façam dialogar as diferenças. Nesse sentido, o conhecimento é a capacidade de exercitar os contrários que se afirmam sobre as crenças. Nesse sentido o conhecimento vem para quebrar os dogmas, pois permite o dialogo entre o que se aprendeu e suas variantes, que contradizem o que se aprendeu. O conhecimento não pode acorrer na unilateralidade nem pela paixão que afirmam as crenças dogmáticas.

A Experiência Plena
“Jesus disse: “Quando fizerdes de dois um e quando fizerdes o interno tal qual o externo e o externo tal qual o interno, e o de cima tal qual o de baixo, e quando tornardes o homem e a mulher um só , de tal forma, que o homem não seja homem e a mulher não seja mulher, quando dispuserdes olhos no lugar de olhos e a mão no lugar da mão, e o pé no lugar do pé, uma imagem no lugar de uma imagem, aí, então, entrareis no Reino” (Evangelho de Tomé).



Enquanto as crenças são organizadas através da aprendizagem para manutenção dos valores estabelecidos pela sociedade, através da educação, a Experiência Plena é uma experiência genuína, que diz respeito ao vivido sem a memória da aprendizagem. A experiência Plena ocorre no agora, sem as contaminações das crenças e do conhecimento.
É nessa perspectiva que podemos dizer sobre o mundo das ilusões (crenças e conhecimento) e o despertar que se referem os grandes mestres da humanidade. Despertar é perceber a experiência plena e enxergar a raiz das crenças, dos dogmas e do conhecimento.
Viver plenamente não significa está alheio ao conhecimento e as crenças. Ao contrário, é perceber a relatividade que tais formulações se encontram, nada mais que isso.

Crenças e a Experiência Plena

Em um dos aforismos do Evangelho de Tomás, são atribuídas palavras com a conotação de que o que estiver dentro de cada um e se manifestar é posto como uma das vivencias do Reino, enquanto o que estiver dentro e não se manifestar levará a morte. Nesse sentido a experiência seja ela de que natureza for, vivida em sua plenitude, fará com que as pessoas sejam mais espontâneas, enquanto que a negação da experiência plena através das crenças dogmáticas poderá trazer como já ocorre, a destruição da humanidade, através da proliferação das doenças, violência hipocrisia moral. Experiências negadas tornam-se inconscientes, mas nem por isso menos destruidoras, pois as substâncias tóxicas e os acúmulos bioenergéticos nos fazem opacos e sem vida.
A questão não é desejar que as crenças desapareçam. Elas fazem parte da vida humana. Todavia, se faz necessário que ela esteja em seu devido lugar e não tome o lugar da experiência em si como acontecem com os dogmas. As crenças dogmáticas embotam a alma e a criatividade, nos fazendo permanecer prisioneiros das cavernas nas quais ser referia Platão.

Os Destinos da Educação

Vivemos uma crise de natureza ética e espiritual sem precedentes. Tanto a Educação formal que é a escola, quanto às outras instituições são partes integrantes dessa crise. Os programas e as capacitações são veículos da manutenção dos dogmas que nos têm destruído. A função maior ainda da educação é de manter o individuo preso à teia dos dogmas e das crenças. Os grandes mestres da humanidade nos indicaram que é possível sair dessa prisão que anda o Ser. Porém quem vai abrir mão do dogma que criou o Deus dos religiosos e a negação do Deus dos ateus? Quem vai abrir mão dos dogmas da ciência que faz crer na divinização de suas descobertas e conhecimentos. Quem vai abrir mão miséria para não mais ser vitima dos poderosos. E quem vai abrir mão da ilusão que o dinheiro e a exploração por meio dele faz com que essas pessoas sejam mais felizes, mesmo com o mundo desabando diante de seu nariz.





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