consciência holográfica

Wednesday, December 07, 2005

As Crenças e suas Dimensões

AS CRENÇAS E SUAS DIMENSÕES


Luciano Lins
Professor adjunto da UPE.


No contexto das filosofias orientais, costuma-se dizer que vivemos sob o véu da ilusão. A cabala Judaica, tradução mística do ocidente denomina a passagem do ego para a alma, como “honestidade”, sendo está a capacidade ou discernimento para enxergar a verdade.
Todavia, nos indagamos sobre o que se entende por ilusão e verdade nesse contexto. Recorrendo a experiência da psicoterapia podemos ter algumas pistas. Em primeiro lugar, que a verdade não é algo absoluto e que a questão da ilusão não diz respeito a mentira ou falta de verdade, mas que se trata do modo pelo qual tais situações operam na vida psíquica e social das pessoas. Em segundo lugar, que a questão das ilusões diz respeito ao conjunto de crenças de uma comunidade ou indivíduo, que impede a manifestação da experiência em sua plenitude, ao mesmo tempo, resistindo que a forma e o conteúdo sejam postos à prova.
O que são as crenças

Para efeito de nossas reflexões, as crenças são conteúdos aprendidos pelo indivíduo ou comunidade, através do processo de aprendizagem, filtrado pela cultura através da educação e das instituições que a legitimam. O processo de incorporação das crenças é de natureza psicofiolóigca e social, significando que não estamos tratando as crenças como meras abstrações, mas são conotadas holisticamente.
As crenças se constituem como fundamentos de sobrevivência de sociedade e psique humana. A ciência, a religião, a política, ideologia, são conjuntos de crenças, nas quais predominam em determinado momento do tempo. As crenças podem ser modificadas, apesar de suas resistências naturais, e estão organizadas para a preservação do individuo e da sociedade.

Crenças e Dogmas

Quando as crenças podem ser questionadas e até mesmo falseadas, temos uma comunidade equilibrada, caso contrário, pode falar em dogmas, ou seja, crenças que não podem ser questionadas e falseadas, sendo vinculadas através da paixão, que pode ser definida como um tipo de hipnose individual e/ou coletiva, que impede o fluir da experiência humana. Dessa forma a ilusão nada mais é do que a crença dogmática, que impede que outras formulações possam se quer ser pensadas, não admitindo de modo nenhum seu contrário. Nessa situação a crença dogmática se constitui como uma dependência do ponto de vista psicofísico e social, que serve de ancoração a manutenção da coesão social e ao mesmo tempo em que a destrói.

Crença e Religião

De um modo geral, as crenças religiosas são formas aprendidas pela cultura e sociedade. São formas de aprendizagem ministrada pela família, escola, igreja, não levando em consideração as experiências do sujeito em relação a si próprio. Tudo é moldado em função de determinada religião através de crenças dogmáticas, embotando a experiência plena. Nesse sentido, podemos perfeitamente compreender quando Sigmund Freud e outros autores viam com certo despreza a religião, pois ela tende a não permitir que a experiência venha à tona.
Assim quando escrevemos Deus como um ser superior e misericordioso, não estamos nos referindo a nossa experiência, mas a conjunto de aprendizagem que é dogmatizada, através da palavra, leitura e determinados rituais. Quando mencionamos a vida depois da morte, geralmente nos reportamos ao que diz determinadas doutrinas e não a nossa experiência com a morte, que geralmente é negada.

Crença e Ciência

A Ciência também está inserida nesse conjunto de crenças, em que a aprendizagem ocorre através da comunidade Científica, com seus métodos e teorias, que são os organizares e mantenedores de suas doutrinas e que em certo sentido tem sua utilidade para o progresso tecnológico e para a acumulação de certos conhecimentos. Todavia, estamos trabalhando com crenças e não com verdades ou experiências plenas. O que não for considerado cientifico é banido da comunidade acadêmica. Atualmente o dogma cientifico é a “verdade” que predomina no mundo moderno, uma vez que ela produz a materialidade que concretiza o mundo capitalista e o mundo dos aparentes fatos.



Crença e conhecimento

Enquanto as crenças estão baseadas na aprendizagem, o conhecimento nesse contexto é a forma de colocar as crenças em xeque em rituais que façam dialogar as diferenças. Nesse sentido, o conhecimento é a capacidade de exercitar os contrários que se afirmam sobre as crenças. Nesse sentido o conhecimento vem para quebrar os dogmas, pois permite o dialogo entre o que se aprendeu e suas variantes, que contradizem o que se aprendeu. O conhecimento não pode acorrer na unilateralidade nem pela paixão que afirmam as crenças dogmáticas.

A Experiência Plena
“Jesus disse: “Quando fizerdes de dois um e quando fizerdes o interno tal qual o externo e o externo tal qual o interno, e o de cima tal qual o de baixo, e quando tornardes o homem e a mulher um só , de tal forma, que o homem não seja homem e a mulher não seja mulher, quando dispuserdes olhos no lugar de olhos e a mão no lugar da mão, e o pé no lugar do pé, uma imagem no lugar de uma imagem, aí, então, entrareis no Reino” (Evangelho de Tomé).



Enquanto as crenças são organizadas através da aprendizagem para manutenção dos valores estabelecidos pela sociedade, através da educação, a Experiência Plena é uma experiência genuína, que diz respeito ao vivido sem a memória da aprendizagem. A experiência Plena ocorre no agora, sem as contaminações das crenças e do conhecimento.
É nessa perspectiva que podemos dizer sobre o mundo das ilusões (crenças e conhecimento) e o despertar que se referem os grandes mestres da humanidade. Despertar é perceber a experiência plena e enxergar a raiz das crenças, dos dogmas e do conhecimento.
Viver plenamente não significa está alheio ao conhecimento e as crenças. Ao contrário, é perceber a relatividade que tais formulações se encontram, nada mais que isso.

Crenças e a Experiência Plena

Em um dos aforismos do Evangelho de Tomás, são atribuídas palavras com a conotação de que o que estiver dentro de cada um e se manifestar é posto como uma das vivencias do Reino, enquanto o que estiver dentro e não se manifestar levará a morte. Nesse sentido a experiência seja ela de que natureza for, vivida em sua plenitude, fará com que as pessoas sejam mais espontâneas, enquanto que a negação da experiência plena através das crenças dogmáticas poderá trazer como já ocorre, a destruição da humanidade, através da proliferação das doenças, violência hipocrisia moral. Experiências negadas tornam-se inconscientes, mas nem por isso menos destruidoras, pois as substâncias tóxicas e os acúmulos bioenergéticos nos fazem opacos e sem vida.
A questão não é desejar que as crenças desapareçam. Elas fazem parte da vida humana. Todavia, se faz necessário que ela esteja em seu devido lugar e não tome o lugar da experiência em si como acontecem com os dogmas. As crenças dogmáticas embotam a alma e a criatividade, nos fazendo permanecer prisioneiros das cavernas nas quais ser referia Platão.

Os Destinos da Educação

Vivemos uma crise de natureza ética e espiritual sem precedentes. Tanto a Educação formal que é a escola, quanto às outras instituições são partes integrantes dessa crise. Os programas e as capacitações são veículos da manutenção dos dogmas que nos têm destruído. A função maior ainda da educação é de manter o individuo preso à teia dos dogmas e das crenças. Os grandes mestres da humanidade nos indicaram que é possível sair dessa prisão que anda o Ser. Porém quem vai abrir mão do dogma que criou o Deus dos religiosos e a negação do Deus dos ateus? Quem vai abrir mão dos dogmas da ciência que faz crer na divinização de suas descobertas e conhecimentos. Quem vai abrir mão miséria para não mais ser vitima dos poderosos. E quem vai abrir mão da ilusão que o dinheiro e a exploração por meio dele faz com que essas pessoas sejam mais felizes, mesmo com o mundo desabando diante de seu nariz.




As Crenças e suas Dimensões

AS CRENÇAS E SUAS DIMENSÕES


Luciano Lins
Professor adjunto da UPE.


No contexto das filosofias orientais, costuma-se dizer que vivemos sob o véu da ilusão. A cabala Judaica, tradução mística do ocidente denomina a passagem do ego para a alma, como “honestidade”, sendo está a capacidade ou discernimento para enxergar a verdade.
Todavia, nos indagamos sobre o que se entende por ilusão e verdade nesse contexto. Recorrendo a experiência da psicoterapia podemos ter algumas pistas. Em primeiro lugar, que a verdade não é algo absoluto e que a questão da ilusão não diz respeito a mentira ou falta de verdade, mas que se trata do modo pelo qual tais situações operam na vida psíquica e social das pessoas. Em segundo lugar, que a questão das ilusões diz respeito ao conjunto de crenças de uma comunidade ou indivíduo, que impede a manifestação da experiência em sua plenitude, ao mesmo tempo, resistindo que a forma e o conteúdo sejam postos à prova.
O que são as crenças

Para efeito de nossas reflexões, as crenças são conteúdos aprendidos pelo indivíduo ou comunidade, através do processo de aprendizagem, filtrado pela cultura através da educação e das instituições que a legitimam. O processo de incorporação das crenças é de natureza psicofiolóigca e social, significando que não estamos tratando as crenças como meras abstrações, mas são conotadas holisticamente.
As crenças se constituem como fundamentos de sobrevivência de sociedade e psique humana. A ciência, a religião, a política, ideologia, são conjuntos de crenças, nas quais predominam em determinado momento do tempo. As crenças podem ser modificadas, apesar de suas resistências naturais, e estão organizadas para a preservação do individuo e da sociedade.

Crenças e Dogmas

Quando as crenças podem ser questionadas e até mesmo falseadas, temos uma comunidade equilibrada, caso contrário, pode falar em dogmas, ou seja, crenças que não podem ser questionadas e falseadas, sendo vinculadas através da paixão, que pode ser definida como um tipo de hipnose individual e/ou coletiva, que impede o fluir da experiência humana. Dessa forma a ilusão nada mais é do que a crença dogmática, que impede que outras formulações possam se quer ser pensadas, não admitindo de modo nenhum seu contrário. Nessa situação a crença dogmática se constitui como uma dependência do ponto de vista psicofísico e social, que serve de ancoração a manutenção da coesão social e ao mesmo tempo em que a destrói.

Crença e Religião

De um modo geral, as crenças religiosas são formas aprendidas pela cultura e sociedade. São formas de aprendizagem ministrada pela família, escola, igreja, não levando em consideração as experiências do sujeito em relação a si próprio. Tudo é moldado em função de determinada religião através de crenças dogmáticas, embotando a experiência plena. Nesse sentido, podemos perfeitamente compreender quando Sigmund Freud e outros autores viam com certo despreza a religião, pois ela tende a não permitir que a experiência venha à tona.
Assim quando escrevemos Deus como um ser superior e misericordioso, não estamos nos referindo a nossa experiência, mas a conjunto de aprendizagem que é dogmatizada, através da palavra, leitura e determinados rituais. Quando mencionamos a vida depois da morte, geralmente nos reportamos ao que diz determinadas doutrinas e não a nossa experiência com a morte, que geralmente é negada.

Crença e Ciência

A Ciência também está inserida nesse conjunto de crenças, em que a aprendizagem ocorre através da comunidade Científica, com seus métodos e teorias, que são os organizares e mantenedores de suas doutrinas e que em certo sentido tem sua utilidade para o progresso tecnológico e para a acumulação de certos conhecimentos. Todavia, estamos trabalhando com crenças e não com verdades ou experiências plenas. O que não for considerado cientifico é banido da comunidade acadêmica. Atualmente o dogma cientifico é a “verdade” que predomina no mundo moderno, uma vez que ela produz a materialidade que concretiza o mundo capitalista e o mundo dos aparentes fatos.



Crença e conhecimento

Enquanto as crenças estão baseadas na aprendizagem, o conhecimento nesse contexto é a forma de colocar as crenças em xeque em rituais que façam dialogar as diferenças. Nesse sentido, o conhecimento é a capacidade de exercitar os contrários que se afirmam sobre as crenças. Nesse sentido o conhecimento vem para quebrar os dogmas, pois permite o dialogo entre o que se aprendeu e suas variantes, que contradizem o que se aprendeu. O conhecimento não pode acorrer na unilateralidade nem pela paixão que afirmam as crenças dogmáticas.

A Experiência Plena
“Jesus disse: “Quando fizerdes de dois um e quando fizerdes o interno tal qual o externo e o externo tal qual o interno, e o de cima tal qual o de baixo, e quando tornardes o homem e a mulher um só , de tal forma, que o homem não seja homem e a mulher não seja mulher, quando dispuserdes olhos no lugar de olhos e a mão no lugar da mão, e o pé no lugar do pé, uma imagem no lugar de uma imagem, aí, então, entrareis no Reino” (Evangelho de Tomé).



Enquanto as crenças são organizadas através da aprendizagem para manutenção dos valores estabelecidos pela sociedade, através da educação, a Experiência Plena é uma experiência genuína, que diz respeito ao vivido sem a memória da aprendizagem. A experiência Plena ocorre no agora, sem as contaminações das crenças e do conhecimento.
É nessa perspectiva que podemos dizer sobre o mundo das ilusões (crenças e conhecimento) e o despertar que se referem os grandes mestres da humanidade. Despertar é perceber a experiência plena e enxergar a raiz das crenças, dos dogmas e do conhecimento.
Viver plenamente não significa está alheio ao conhecimento e as crenças. Ao contrário, é perceber a relatividade que tais formulações se encontram, nada mais que isso.

Crenças e a Experiência Plena

Em um dos aforismos do Evangelho de Tomás, são atribuídas palavras com a conotação de que o que estiver dentro de cada um e se manifestar é posto como uma das vivencias do Reino, enquanto o que estiver dentro e não se manifestar levará a morte. Nesse sentido a experiência seja ela de que natureza for, vivida em sua plenitude, fará com que as pessoas sejam mais espontâneas, enquanto que a negação da experiência plena através das crenças dogmáticas poderá trazer como já ocorre, a destruição da humanidade, através da proliferação das doenças, violência hipocrisia moral. Experiências negadas tornam-se inconscientes, mas nem por isso menos destruidoras, pois as substâncias tóxicas e os acúmulos bioenergéticos nos fazem opacos e sem vida.
A questão não é desejar que as crenças desapareçam. Elas fazem parte da vida humana. Todavia, se faz necessário que ela esteja em seu devido lugar e não tome o lugar da experiência em si como acontecem com os dogmas. As crenças dogmáticas embotam a alma e a criatividade, nos fazendo permanecer prisioneiros das cavernas nas quais ser referia Platão.

Os Destinos da Educação

Vivemos uma crise de natureza ética e espiritual sem precedentes. Tanto a Educação formal que é a escola, quanto às outras instituições são partes integrantes dessa crise. Os programas e as capacitações são veículos da manutenção dos dogmas que nos têm destruído. A função maior ainda da educação é de manter o individuo preso à teia dos dogmas e das crenças. Os grandes mestres da humanidade nos indicaram que é possível sair dessa prisão que anda o Ser. Porém quem vai abrir mão do dogma que criou o Deus dos religiosos e a negação do Deus dos ateus? Quem vai abrir mão dos dogmas da ciência que faz crer na divinização de suas descobertas e conhecimentos. Quem vai abrir mão miséria para não mais ser vitima dos poderosos. E quem vai abrir mão da ilusão que o dinheiro e a exploração por meio dele faz com que essas pessoas sejam mais felizes, mesmo com o mundo desabando diante de seu nariz.





Psicoterapia dos Sonhos

PSICOTERAPIA DOS SONHOS

LUCIANO LINS
UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO
FACULDADE DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE GARANHUNS


SONHOS: O QUE SÃO?

A pergunta sobre o que são os sonhos faz parte da inquietação das pessoas desde os primórdios da humanidade. Várias são as suas definições e essas por sua vez variam em conformidade com as crenças e os valores do estudioso. Essa perspectiva também se delineia em relação aos investigadores oníricos. Cada pesquisador expressa o significado dos sonhos em função das teorias abordadas e que caracterizam o perfil do estudioso.
Para nossa compreensão, os sonhos se traduzem como expressão do nível de realidade em que esteja inserido o sonhador e suas funções varia em detrimento das necessidades do organismo, do momentum do individuo e das aspirações do Ser. Não existem sonhos que possam ser analisados linearmente ou interpretado de forma absoluta. Boa parte dos sonhos não precisa de interpretação, uma vez que nem sempre é expressão simbólica carregadas de significado.

TIPOS DE SONHOS

De acordo com nossa compressão, o universo onírico pode ser classificado em função das necessidades, momentum e aspirações do Ser. Em função das necessidades os sonhos podem expressam algum tipo de carência do organismo como sede, fome, estresse, confusão, medo, paixão, etc. Nessa classificação também entram os sonhos metabólicos, que eliminam através da angustias e pesadelos, bioenergia excessiva e letal. Em relação ao momento do indivíduo, os sonhos podem expressar simbolicamente os caminhos percorridos pela jornada da alma no sendo de auto e holorealização. Ou seja, os sonhos podem expressam através da simbologia, o desenvolvimento da personalidade. Finalmente, os sonhos também podem delinear a busca do Ser Cósmico. O seja, além de humanos, o que somos nós e onde nos inserimos como viajante do universo. Esse é domínio da abordagem transpessoal.



OS SONHOS E A PERSONALIDADE

Segundo tese desenvolvida pelo autor[1], a personalidade humana pode ser organizada a partir das Dimensões Histórica, Mítica e Mística. A Dimensão Histórica é uma referência no contexto das experiências do sujeito na ordem causal. Ou seja, nessa perspectiva, estão delimitadas as experiências do Ego, cujo processo de identificação através da cultura e padrões genéticos define sua estrutura e função. O ego decodifica o plano das necessidades nas interações endógenas e exógenas. Nesse caso, os sonhos refletem o processo de identificação do Ego.
A Dimensão Mítica diz respeito ao plano da psique ou alma e se expressa através dos símbolos pessoal e coletivo. É o campo da imaginação mítica que serve linguagem metafórica para que a jornada da alma seja compreendida e integrada. A sincronicidade ou Princípios de Conexões Acausais é a tônica, conotando não o reino da causalidade, mas as coincidências significativas. A alma é o existencial, o verdadeiramente humano. Os sonhos revelam nesse contexto, os significados existenciais e os mitos que os simbolizam.
A Dimensão Mística tocam o domínio do desconhecido, que estão além da alma e alçam vôos ao universo infinito. Somente as experiências místicas desvelam sutilmente o campo cósmico. Os sonhos aqui indicam que o universo não se limita apenas a nossa percepção e a forma como percebemos a realidade. Os sonhos lúcidos e determinados sonhos ditos “confusos” podem ser expressões desse plano cósmico.

CONSIDERAÇÕES

Os sonhos podem denotar e conotar várias dimensões com suas necessidades e aspirações do Ser. Para compreender a imaginação onírica, é preciso iro em busca do Ser em sua totalidade. Não se pode interpretar um sonho isolado do sonhador e de quem os interpreta. A ressonância existencial é que conduz ao seu real significado.






BIBLIOGRAFIA

DELANEY, Gayle.O Livro de Ouro dos Sonhos.RJ.Ediouro.2.000
GAUTIER, Elisabeth.As Mensagens do Sonho.Lisboa.Pergaminho.
1998.
LINS, Luciano da Fonseca. O Mito do Significado no Contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma Pedagogia da Individuação. Tese de Doutorado. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. 2002.



[1] O MITO DO SIGNIFICADO NO CONTEXTO DA RELIGIOSIDADE NUMA NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA: REFLEXÕES PARA UMA PEDGOGIA DA INDIVIDUAÇÃO. Tese de Doutorado. Universidade do Porto. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. Porto.2002.

Metodologias de Formação

AUTOCONHECIMENTO E
METODOLOGIAS DE FORMAÇÃO

LUCIANO LINS
UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO

O professor repassa aprendizagem, o educador facilita as descobertas. Ambos são necessários. Ninguém sobrevive sem aprendizagem, o sujeito não se torna verdadeiramente humano se não se arriscar no desconhecido de sua alma. A questão é verificar da possibilidade de se descortinar territórios sem a interferência meramente do Eu. É possível desenvolver métodos que possam facilitar o autoconhecimento?
O primeiro ponto que pretendemos destacar para nossa reflexão, é que não existe nenhum método que por si mesmo abra os portais do desconhecido. Faz-se necessário o olhar do buscante para que os métodos possam tocar o âmago do Ser. Neste ponto, o que propomos é que as metodologias são rituais que ressoam ou não a alma humana e somente assim é possível acessar os portais do incognoscível.
Portanto, o que vamos apresentar no presente trabalho, é apenas uma indicação, uma possibilidade para ressoar a alma. Tudo depende do sujeito que se envolve na ação para buscar o autoconhecimento. Não se trata, pois, de um modelo infalível. Poderá facilitar algumas pessoas e não promover nenhuma ressonância em outras.

As Narrativas.

As Narrativas são formas de contatar a subjetividade com a finalidade de compartilhar com outros indivíduos que possam inspirar confiança e troca afetiva com o objetivo de acessar o desconhecido. As narrativas podem ser mítica, onírica ou autobiográfica.

Narrativas Míticas:

As narrativas míticas são metodologias para o autoconhecimento, que tratam das questões do imaginário criativo. Elas incluem os textos míticos, os contos de fadas e as lendas. A função das narrativas míticas é poder espelhar para o sujeito ou para o grupo alguma imagem arquetípica que esteja ancorado pelas identificações conscientes ou inconscientes do indivíduo ou do grupo. Ou seja, as narrativas míticas tanto apontam para potenciais inconscientes no indivíduo como também permite o processo de (des) identificação ou reconhecimento.
O Imaginário se expressa através dos sonhos, mitos e contos, tendo a capacidade de atingir aspectos do Ser, não digeridos pelo racional, pois sua linguagem é metafórica e poética. As histórias narradas são de natureza simbólica, e possibilita o mergulho do eu para a alma. Da mesma forma que os signos são considerados o veículo de comunicação e expressão do eu, os símbolos e as metáforas são considerados os veículos de comunicação e expressão da alma. Alma aqui pode ser traduzida como sinônimo de anima na terminologia da abordagem arquetípica. Representa os aspectos intuitivos, emocionais e criativos da personalidade. A alma ou psique faz a ponte com nossa existência e sentimento do eu e o sentido do incognoscível. A realidade última é inacessível, no entanto os símbolos atuam como pontes de referência, como algo que se aproxima do real.
Geralmente, os textos dos contos e dos míticos podem ser utilizados como formas de socializar, compartilhar e buscar símbolos do significado. Os textos podem ser lidos, a partir dos interesses dos alunos. Ou seja, os próprios alunos podem recorrer a textos que exerçam um certo fascínio sobre os mesmos. É desta forma que podemos partir de algum ponto mencionado para amplificar à luz simbólica dos significados recolhidos nos textos. Não se trata absolutamente de interpretar os textos, mas poder observar o que tocou o indivíduo ou o grupo. A partir de então, possibilitar aprofundar as questões existenciais vividas no contexto das salas de aulas e experimentadas dentro e fora do âmbito da mesma.
Perceber o padrão subjacente ao comportamento é um primeiro passo para o autoconhecimento. Sem dúvida que, se criando uma atmosfera de confiança, o grupo, seja tanto de educadores quanto de educando, poderá iniciar um processo riquíssimo no que concerne às descobertas pessoais.

Narrativas Oníricas.

As narrativas oníricas constituem os sonhos que vivenciamos e que pode ser socializado e compartilhado no e pelo grupo. O interesse inicial é de caráter pedagógico no sentido de partilha e não de interpretação.Geralmente os sonhos trazem em si mesmo alto valor afetivo, uma vez que traz à tona a intimidade do sujeito. Também é importante perceber que alguns sonhos demandam significados existenciais e símbolos que podem acessar os portais do incognoscível. A interferência do educador no sentido de pontuar o sonho pertence a uma etapa posterior, quando o grupo estiver conquistado sua autoconfiança. No entanto, vale salientar que as pontuações devem ser remetidas para o contexto do sonhador e seu objetivo é facilitar a compreensão de aspectos inconscientes da personalidade. O texto do sonho também pode ser amplificado para textos míticos, quando estiver claro a presença de padrões arquetípicos, e evidentemente quando for importante para o sonhador e para o grupo amplificar os sonhos. A amplificação é uma técnica muito utilizada no contexto da abordagem arquetípica e consiste em transpor o relato do sonho para as narrativas míticas. O sonhador pode, por exemplo, sonhar com uma pessoa falecida expressando a continuidade da vida após a morte. Neste caso, pode-se não apenas colocar em questão as preocupações do sujeito com a vida e a morte, como também contar uma passagem, cuja metáfora evoca esta situação. Pode-se, por exemplo, mencionar o livro tibetano dos mortos, onde se narra a passagem do “morto” no reino dos desencarnados. O objetivo não é absolutamente provar se existe vida depois da morte, mas procurar responder pelas indagações da alma, que não precisam vir como respostas concretas. Esse é, pois um exemplo de uma situação arquetípica e normalmente afeta o grupo como um todo, que passa a expressar suas preocupações, crenças, angústias e esperanças de uma etapa que é desconhecida para o eu.
Trabalhar com os sonhos em relação aos educadores quanto para os educandos é sem dúvida uma experiência muito interessante, pois estes permitem vir à tona a alma do sujeito de forma bastante sensibilizada. Uma aluna relatou que sonhava constantemente com um sujeito vestido de preto e acena para que esta o acompanhasse. Ao relato esta situação onírica, a aluna não somente se sensibilizou como também despertou a curiosidade e o medo de outras do grupo. A conotação foi que o “homem de preto” a convidava constantemente para ir vivenciar outras esferas incógnitas de sua personalidade da qual a moça sentia medo de experienciar. O relato do sonho emergiu na consciência da sonhadora vários sentimentos em relação ao seu significado existencial, assim como possibilitou despertar nos outros alunos este estado de coisas.


Narrativas Autobiográficas.

As narrativas autobiográficas aparecem com esta denominação em Lins[1] e na verdade é uma ampliação das Histórias de Vida. Ou seja, o sujeito escreve sua história de vida e posteriormente procura desvelar os arquetípicos que estão subjacentes aos padrões de comportamento que condicionam a vida do sujeito.
A primeira etapa para desenvolver este trabalho pode ser formulada através de seminários, onde os grupos são divididos em quartetos. As pessoas implicadas vão relatando acontecimentos, sonhos, poesias e qualquer outra situação que no momento desperte seu estado emocional. Posteriormente os indivíduos vão passando para o papel e vão delineando suas histórias. Os seminários poderão acontecer semanalmente, quinzenalmente ou uma vez por mês. O objetivo dos seminários é criar uma atmosfera favorável para a composição da Narrativa. A narrativa autobiográfica é um trajeto sobre o imaginário e não obedece a tempo cronológico ou mesmo acontecimentos factuais. O sonho, a poesia, um devaneio pode perfeitamente entrar no campo da narrativa. Importante é que tais passagens sejam compartilhadas pelo mesmo grupo e que este também esteja presente para identificação das figuras arquetípicas que estejam permeando o texto da narrativa.
Os arquétipos são matrizes universais da alma humana, que expressam situações experienciadas no individual com tonalidades coletivas. Rituais de nascimento e de morte, casamento, Estádios do desenvolvimento da personalidade humana. Figuras arquetípicas como Anjo guardião, persona, sombra, anima e animus, são algumas imagens arquetípicas da psique. Ou seja, os arquétipos representam situações básicas e primordiais da psique humana, da mesma forma que o aparato biofisiológico é a matriz da materialidade do Ser. O problema que é focalizado pela abordagem arquetípica é de ter carregado muito psicologicamente as estruturas arquetípicas, deixando-se de perceber e aprofundar suas contrapartes biológicas, fornecendo fundamento para uma ciência integral e integrada. Todavia, esta discussão acontecerá em outros textos, mais adiante. No momento o que nos interessa é que o sonho podem ser trabalhado no seu contexto individual, a coletividade existencial, presente na estrutura da personalidade.



Supervisão Psicopedagógica.

Outro método que pode ser utilizado em ciências da educação pelos educadores é a supervisão psicopedagógica. A inspiração inicial foi o modelo da supervisão psicanalítica, que consiste em trabalhar a relação analista/analisando numa perspectiva da transferência e contra-transferência. Ou seja, no contexto do trabalho analítico as emoções e envolvimentos entre psicanalista e cliente são levados para a supervisão no sentido de dissociar a função transferencial. Ou seja, o envolvimento de ambas as partes no tratamento impede o próprio tratamento, uma vez que sai de foco os conteúdos inconscientes para entrar em cena os envolvimentos afetivos e emocionais. No âmbito da escola acontece a mesma coisa. O tipo de relação estabelecida na dinâmica professor/aluno pode impedir não somente questões referentes à aprendizagem como também o processo de facilitação para o autoconhecimento.
Para esta finalidade são formados pequenos grupos (até 10 componentes no máximo), onde os educandos expõem situações vivenciadas em sala de aula (ou em outro contexto), para que seja tornada consciente a projeção do sujeito. Até aqui pode ser utilizado o modelo psicanalítico tradicional. No entanto, também pensamos ser necessário acrescentar alternativas. A primeira delas é incrementar aos trabalhos alguma modalidade das narrativas para que o inconsciente possa se abrir para outras esferas além da relação transferencial. A criatividade deve ser um componente dinâmico buscado no processo do autoconhecimento, e utilizar elementos da psicologia transpessoal, (o sonho acordado, imaginação ativa) diário de bordo, meditação e outros ingredientes, podem ser bem vindos quando o propósito não é doutrinar a psique, mas facilitar sua auto-descoberta..

Ainda uma palavra.

Acreditamos que sempre é importante enfatizar que esta ou qualquer metodologia de formação, não é a verdade absoluta ou o caminho para ser rigorosamente percorrido por educadores ou quem quer que seja. São apenas sugestões para ser tomadas ou postas de lado, depende da escolha de cada um.
Do mesmo modo, é importante esclarecer que quando definimos a individuação como a emergência da consciência nas dimensões da alma (Histórica, Mítica e Mística), estamos apenas sugerindo um modelo teórico da personalidade. A prática é outro terreno, que no momento em que se procura estabelecer parâmetros de causalidade entre teoria e prática, cai-se na armadilha de desvirtuar o sentido do autoconhecimento e a possibilidade de descobrir a si mesmo. Este é perigo do mundo acadêmico quando tratamos das relações humanas. Esquecer de si e do outro como construção para escutar os modelos teóricos. Os modelos são pistas que podem indicar as formações estruturais da personalidade, de acordo com a visão de determinado estudioso. Não se trata de verdade par se comprovada, posto que nosso sistema de crenças geralmente são comprovados numa ou noutra argumentação. E então deixamos de perceber as qualidades genuínas e criativas da alma humana.


[1] O Mito do Significado no Contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma Pedagogia da Individuação. Tese de doutorado. Porto.FPCE-UP.2002.

Psicanálise Integral

FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE
INTEGRAL



Definição e Campo.

Quando se fala em psicanálise à tendência imediata é de se reportar a Freud. De certo modo, nada mais natural, uma vez que foi Sigmund Freud o idealizador da psicanálise. Neste sentido, o termo implica não somente uma teoria da personalidade, mas também, um método e um conjunto de técnicas que objetivam o tratamento das neuroses.
Contudo a expressão psicanálise integral, mesmo reconhecendo em Freud seu iniciador, procurar ampliar o leque da pesquisa da psique e também procura ampliar o sentido da metodologia que primordialmente é empregada para facilitar o sujeito na busca do autoconhecimento. Para início se faz necessário definir apalavra psique para que possamos melhor compreender o vocábulo psicanálise integral.
Psique em grega significa alma e é nesta perspectiva que nos propomos a empregar o termo mencionado. Porém o que pretendemos definir a palavra alma. James Hillman, em sua oba Psicologia Arquetípica escreve sobre a alma.
O cultivo da alma é também descrito como imaginar, ou seja, ver ou ouvir por meio de uma imaginação que enxerga a sua imagem através de um evento.Imaginar significa libertar os eventos de sua compreensão literal para uma apreciação mítica. Cultivo da alma, neste sentido, equipara-se com des-literação__ aquela atitude psicológica que suspeita do nível dado e ingênuo dos acontecimentos e o rejeita para explorar seus significados sombrios e metafóricos da alma. (Hillman. 1995:55).

A alma neste sentido não tem valor substancial, mas se caracteriza pela qualidade do olhar que literaliza ou metaforiza os supostos fatos. Na formulação do que denominou Psicologia Arquetípica, escreve Hillman:
A Psicologia Arquetípica sustenta, contudo, que não podemos nunca ser puramente fenomenológicos ou verdadeiramente objetivos. Nunca se está além do subjetivismo dados pelos dominantes das estruturas de fantasia inerentes à alma. Estes controlam as perspectivas subjetivas e as organizam em “instâncias”, de tal modo que a única objetividade que pode ser tornar mais próxima resulta do olho subjetivo voltado para si mesmo, observando seu modo de olhar, examinando sua própria perspectiva com relação aos sujeitos arquetípicos, os quais estão neste momento direcionando nosso modo de ser no mundo dos fenômenos. (Hillman. 1995:51).

A alma é uma qualidade do Ser que percebe a realidade através da imaginação. Não havendo, pois realidade inteiramente subjetiva, a alma confere metáforas e significações que dão colorido e dinâmica existencial.
Nesta perspectiva, a psicanálise integral é solidária com a base poética da psique reencantada por Hillman. Portanto a alma é uma perspectiva, um olhar, uma qualidade da percepção, podendo ser colocada como consciência. Esta forma de ser-no mundo, não é propriedade da psicologia, filosofia ou biologia. Mas, pode perfeitamente formular pontes com as mais variadas disciplinas, uma vez que um dos objetivos da psicanálise integral é tratar do Ser em sua totalidade e duas relações com o universo. Assim podemos falar sobre o segundo ponto que procuramos definir como perspectiva deste olha de integralidade.
Quando colocamos em discussão o Ser integral, pensamos imediatamente no “Homem Arquetípico” e suas dinâmicas. Evidentemente é importante frisar que o homem arquetípico aqui tratado nada mais é do que mais um olhar entre outros olhares teóricos. É um mapa que em hipótese alguma deve ser confundido com o território. Cabe inicialmente definir o termo arquétipo. Diz Hillman: “arquetípico pertence a toda cultura, a todas as formas de atividade humana, e não somente aos profissionais que praticam a terapêutica moderna. Pela definição tradicional, arquétipos são as formas primárias que governam a psique” (Hillman.1995:21).
Assim os arquétipos formam a matriz da alma humana, contendo não somente todas as atividades como também sua estrutura biopsicossocial. É neste sentido que nenhum ramo do conhecimento pode se apropriar da totalidade humana, o que não impede de partir de determinados estudos, compreende a totalidade como também integrá-la a um determinado campo do conhecimento. A função do terapeuta integral não é fazer psicoterapia, mas e, sobretudo, compreender e tratar do Ser em toda sua complexidade, sem reduzi-lo a qualquer aspecto específico. A psicanálise integral também não pretende impor nem mesmo um modelo que se defina como totalidade. Pretendemos trabalhar com sugestões a partir de nossa subjetividade, integrando a outros modelos que proponham trabalhar o homem arquetípico. O terapeuta integral exerce qualquer função, seja médicos, psicólogos, assistentes sociais, advogados, biólogo, professor, etc. Não é a profissão que define o terapeuta integral, mas a forma como este percebe o Ser em seus aspetos globais interagindo com todas as partes que o compõe.
Desta forma, propomos uma perspectiva da totalidade da alma, que na medida das pesquisas, descobertas e autodescobertas, pode-se perfeitamente ampliar o que estamos propondo como Ser integral.
Num trabalho de investigação doutoral, propomos que o Homem arquetípico pode ser delineado em três “dimensões”: Histórica, Mítica e Mística. [1].
A Dimensão Histórica corresponde a todos os processos que estão dinamizados pelo sistema identificatório. Vão desde a matriz neurobiológica correspondente ao nosso lado mais primitivo do cérebro, que traz dentro de si todo o aparato instintual, envolvendo inclusive as imagens de nossa ancestralidade até as formações culturais e sociais reproduzidas pela família e demais instituições. Na Dimensão Histórica estão delineados os sentidos de identidade do eu, as emoções primárias e toda gama de ação reflexa. Neste nível também estão situações o que Damásio (2002) denominou de eu autobiográfico e corresponde ao acumulo de experiências vividas pelo sujeito durante toda sua trajetória existencial. Também se inclui nesta perspectiva, a consciência nuclear estudada pelo mesmo autor à luz da neurobiologia e que retomaremos em outra oportunidade.
A Dimensão Mítica na verdade corresponde aos símbolos que dão sentido e significado a existência humana. A linguagem deixa de ser meramente um conjunto de signos para se situar entre o conhecido e o inefável, estando, pois, grávido de sentido que fornece a base de significações e certo equilíbrio para a estrutura psíquica.
Joseph Campbell, mitólogo descreve sobre a importância da dimensão mítica da psique:
A vida de uma mitologia vem da vitalidade de seus símbolos como metáforas transmissoras não apenas de idéia, mas de um senso de participação real nessa realização de transcendência, infinidade e abundância, de que nos falam os autores upanixádicos. Na verdade, o primeiro e mais essencial serviço de uma mitologia é este, o de abrir a mente e o coração à maravilha total de todo ser. E o segundo serviço é cosmológico: representar o universo e todo o espetáculo da natureza, tanto como conhecer a mente como vê o olho como uma epifania.De tal modo que quando o relâmpago lampeja ou o sol poente inflama o céu, sou se vê um gano de pé, alerta a exclamação “Ah” possa ser pronunciada como um reconhecimento da divindade.
(Campbell. 1991:09).

A dimensão mítica é movida pelo senso de busca de significados que expressem a finalidade da existência humana. Sartre, Jung, Campbell, escreveram e investigaram profundamente sobre esta questão. Um significado pode ser conotado desde o um sistema de crenças que tem como base a memória cultural, até o ponto da verdade vislumbrada pelo sujeito em conformidade com seus arquétipos interiores. Nesta perspectiva, as narrativas míticas desempenham forte papel como forma de espelhar e mesmo despertar a alma humana. Num nível mais profundo da busca do significado, o mapa psíquico delineados por outros buscantes, pode facilitar o mergulho na alma e conseqüentemente o sentido existencial que ela poderá proporcionar ao buscante. Num outro nível ainda mais profundo, o conhecedor enxerga a si próprio e outros significados surgirão. Este é o reino do autoconhecimento, ponte para a próxima dimensão da alma.
A Dimensão Mística, como o próprio nome indica, acessa a alma ao incognoscível. A palavra mística vem de mistério. Leonardo Boff, assim define a perspectiva do ermo místico.
Originalmente, a palavra mistério (mysterion em grego, que provém de múein, quer dizer perceber o caráter escondido, não comunicado de uma realidade ou de uma intenção).Não possui um conteúdo teórico, mas está ligada a experiência religiosa, nos ritos de iniciação. A pessoa é levada a experimentar por meio de celebrações, cânticos, danças dramatizações e realizações de gestos rituais, uma revelação ou iluminação conservada por um grupo determinado e fechado.
Mistério não equivale a enigma que, quando decifrado desaparece. Mistério designa a dimensão de profundidade que se inscreve em cada pessoa, em cada ser e na totalidade da realidade e que possui um caráter definitivamente indecifrável. Aquilo que chamamos de realidade apresenta-se incomensuravelmente maior que a nossa razão e nossa vontade de dominar pelo conhecimento. A pessoa humana, a fortiori, é mais do que sistemas de compreensão ou formas de convívio social (Boff. 1994,12-13).
Ora, neste contexto, a dimensão do mistério equivale ao encontro com a profundidade do Ser, que está para além da compreensão, da teoria e dos valores estabelecidos sejam por esta ou aquela doutrina. Neste ponto , o autoconhecimento torna-se o instrumento principal deste encontro, pis para o sujeito se abrir para que as formações místicas da personalidade entre em cena, se faz necessário se despojar de toda variedade de conhecimento,que nada mais é de que acúmulo de experiências e identificações.
Muitos estudiosos têm definido este tipo de encontro, como sendo do domínio da espiritualidade humana. É desta forma que o organizador de “O mais elevado Estado de Consciência”:
Existe um paradoxo na jornada espiritual qual seja: o propósito da nossa jornada. A resposta que buscamos, nada mais é do que aquilo que já somos em essência_ se, a totalidade máxima que é a fonte do vir-a-ser.A iluminação é a revelação da verdade do ser, tradicionalmente chamado de Deus, Ser Cósmico, Ente Supremo, o Um-em-Tudo (aliás, alguns mestres iluminados_ Buda foi um deles_ preferem evitar termos teístas a fim de se comunicar melhor. Seu intento é evitar o profundo condicionamento cultural contido nessa linguagem, que impede a compreensão). Somos manifestações do Ser, mas à semelhança do próprio cosmos, e estamos também no processo de vir-a-ser_ sempre acrescentando, mudando, desenvolvendo-nos e evoluindo para estados mais e mais elevados que expressam eterna e bela perfeição da origem da existência. Assim, não somos apenas seres humanos; somos também seres humanos em transformação. A iluminação consiste em compreender o perfeito equilíbrio entre o ser e o vir-a-ser (White. 1998:15).

A Dimensão Mística está inserida então numa dupla vertente: De acessar o sujeito na em sua própria essência, que lhe é constitutivo da verdade do sujeito, que está para além dos condicionamentos. O segundo ponto é que, a partir do autoconhecimento, é possível acessar a profundeza do Ser e da Realidade Fundamental, que estão para além das palavras e do conhecimento. Este é o território das experiências denominadas de religiosas e transcendentais, na medida em que o reino do simbolismo possibilita ritualizar esta passagem. Estamos num terreno que está além da ciência, da religião e de qualquer outra forma de conhecimento. É a pura experiência.
Na Dimensão Mística estão contidos os níveis Quânticos e propriamente, o Incognoscível ou a Realidade Absoluta. Enquanto que no mundo dos quântas, a consciência cria a realidade, partindo da percepção e dos conteúdos que estão presentes no inconsciente (os arquétipos), o incognoscível é o próprio inconsciente, enquanto vazio pleno, ainda não impregnado por qualquer ordem, conteúdo ou forma. Estamos aqui completamente fora do âmbito atual da ciência, apenas especulados por alguns sábios cientistas ou místicos.

Transferência e Contratransferência.

A Psicanálise Integral manifesta o interessa pela relação transferencial e contra-transferencial, que se estabelece na relação com o terapeuta, educador, professor, família, etc. O objetivo é conectar através do enfoque da transferência, o sujeito do autoconhecimento, no qual poderá estabelecer com o outro uma relação autêntica.
Todavia existe aqui uma distinção entre o conceito de transferência desenvolvido no modelo freudiano[2]. Na perspectiva freudiana, o problema da transferência esteja inserida num contexto de causalidade, que tem na relação parental o protótipo das futuras relações e conseqüentemente, a dinâmica da transferência está ancorada pelo conjunto dessas relações concretas ou fantasmáticas. Embora a família assim como as outras instituições sociais, o palco para o drama existencial, a “tinta onde são escrita” a jornada interior, a dinâmica vivenciada em qualquer contexto já se encontra imaginada pelo “quadro negro” da psique. Em outras palavras, psique e cultura se completam sincronisticamente. Outro ponto importante sobre a transferência, é sobre a natureza da mesma, que na referência da psicanálise freudiana, denota a perspectiva da estrutura edípica. No contexto da psicanálise tradicional, o Édipo desempenha papel central na formação da personalidade e na dinâmica das relações interpessoais. A ênfase adotada na teoria freudiana é na sexualidade, sendo esta a base para que o processo de identificação toma corpo. O “princípio do prazer” e o “princípio de realidade” são adotados nesta perspectiva da sexualidade, embora esta seja ampliada pela abordagem freudiana.
Embora seja adotado na psicanálise integral, a questão da estrutura edípica, esta tem sua conotação ampliada. Em primeiro lugar focalizamos que os mitos expressam formações inconscientes da alma, mas que a maneira como é percebida e sentida pelo sujeito é que vai definir onde o mesmo foi capturado. O mito em si não aponta para essa ou aquela qualidade ou estrutura, tudo depende da percepção. Em segundo lugar, entendemos que não somente o mito de Édipo como qualquer mito contém em potencial os arquétipos organizadores da humanidade, e que a escolha de determinado mito para ser analisado se deve muitas as ressonâncias da narrativa sobre o estudioso.
Sendo assim, podemos dizer que o mito de Édipo contém potencialmente todos os organizadores da humanidade, incluindo a sexualidade, mas não se reduz a esta. A briga pelo poder, a questão familiar, a deificação do herói (Édipo em colona), o masculino e o feminino, e tantas outras variações estão na ordem de interesse da psicanálise integral. Portanto, quanto mais percebermos as variantes do mito, é possível compreender melhor o Homem Arquetípico. A questão da transferência somente poderá ser ressaltada no momento em que ela ocorrer e é neste ponto que determinados mitologemas podem ser trabalhados no contexto clínico ou no processo de educação, sem que seja priorizada previamente essa ou aquela compreensão sobre a estrutura edípica.

Individuação e Autoconhecimento.

A Psicanálise Integral prioriza fundamentalmente o desenvolvimento do potencial humano, denominado de processo de individuação, assim como sua ferramenta essencial que é o autoconhecimento. A individuação é o processo pelo qual a personalidade se realiza. Não se trata de determinar ou normatizar o que consiste esta realização, embora na abordagem arquetípica existam pistas que corroborem a individuação em ermos conceituais. Carl. Gustav Jung tratou a individuação em termos de sínteses dos opostos: inconsciente/consciente, anima/animus, sombra/persona.[3]
Neste sentido preferimos definir a individuação como um processo de inteireza da personalidade, relativização do sujeito e autoconsciência nos níveis de realidade vivenciada pelo indivíduo. Isso implica que a individuação num primeiro nível se expressa na capacidade do sujeito está inteiro em sua ação interna e externa sem que o juízo de valor seja uma tônica a ser pontuada. Num segundo nível, o processo de individuação consiste na capacidade do sujeito em relativizar seu sistema de crenças. Ou seja, neste sentido o processo de individuação se traduz como capacidade de comunicação real com o outro, onde tanto seu desejo como do outro são reconhecidos sem ser imposto. Finalmente, neste trabalho a individuação se caracteriza como a sincronização e autoconsciência dos níveis de realidade vivenciados pelo sujeito, que vai desde a dimensão histórica até a dimensão mística da personalidade. Estas três situações existenciais podem servir como parâmetro para uma consciência individuada (percepção de indivisibilidade do sujeito, que não tem nada haver com individualismo).
O autoconhecimento é o instrumento da personalidade que realiza o processo de individuação. O autoconhecimento consiste na experiência direta e na atenção dos movimentos executados pelo sujeito, sejam estes condensados sob forma de comportamento ou pensamento. Tal observação possibilita que o comportamento que é acionado pelo aprendizado deixe de alimentar os condicionamentos, que operam na subjetividade e no mundo exterior ao indivíduo. Ou seja, a atenção e a compreensão dos processos do pensamento que se traduz nas ações humanas, permitem cessar o repertório da memória para engendrar a verdade da alma e os territórios do incognoscível.

[1] O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma pedagogia da Individuação.
[2] Freud, Sigmund. Obras Completas.Vol. XII. Artigos sobre a Técnica. RJ. Imago.
[3] Jung, Carl.Obras completas. Petrópolis-RJ.Vozes.

Psicanálise Integral

FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE
INTEGRAL



Definição e Campo.

Quando se fala em psicanálise à tendência imediata é de se reportar a Freud. De certo modo, nada mais natural, uma vez que foi Sigmund Freud o idealizador da psicanálise. Neste sentido, o termo implica não somente uma teoria da personalidade, mas também, um método e um conjunto de técnicas que objetivam o tratamento das neuroses.
Contudo a expressão psicanálise integral, mesmo reconhecendo em Freud seu iniciador, procurar ampliar o leque da pesquisa da psique e também procura ampliar o sentido da metodologia que primordialmente é empregada para facilitar o sujeito na busca do autoconhecimento. Para início se faz necessário definir apalavra psique para que possamos melhor compreender o vocábulo psicanálise integral.
Psique em grega significa alma e é nesta perspectiva que nos propomos a empregar o termo mencionado. Porém o que pretendemos definir a palavra alma. James Hillman, em sua oba Psicologia Arquetípica escreve sobre a alma.
O cultivo da alma é também descrito como imaginar, ou seja, ver ou ouvir por meio de uma imaginação que enxerga a sua imagem através de um evento.Imaginar significa libertar os eventos de sua compreensão literal para uma apreciação mítica. Cultivo da alma, neste sentido, equipara-se com des-literação__ aquela atitude psicológica que suspeita do nível dado e ingênuo dos acontecimentos e o rejeita para explorar seus significados sombrios e metafóricos da alma. (Hillman. 1995:55).

A alma neste sentido não tem valor substancial, mas se caracteriza pela qualidade do olhar que literaliza ou metaforiza os supostos fatos. Na formulação do que denominou Psicologia Arquetípica, escreve Hillman:
A Psicologia Arquetípica sustenta, contudo, que não podemos nunca ser puramente fenomenológicos ou verdadeiramente objetivos. Nunca se está além do subjetivismo dados pelos dominantes das estruturas de fantasia inerentes à alma. Estes controlam as perspectivas subjetivas e as organizam em “instâncias”, de tal modo que a única objetividade que pode ser tornar mais próxima resulta do olho subjetivo voltado para si mesmo, observando seu modo de olhar, examinando sua própria perspectiva com relação aos sujeitos arquetípicos, os quais estão neste momento direcionando nosso modo de ser no mundo dos fenômenos. (Hillman. 1995:51).

A alma é uma qualidade do Ser que percebe a realidade através da imaginação. Não havendo, pois realidade inteiramente subjetiva, a alma confere metáforas e significações que dão colorido e dinâmica existencial.
Nesta perspectiva, a psicanálise integral é solidária com a base poética da psique reencantada por Hillman. Portanto a alma é uma perspectiva, um olhar, uma qualidade da percepção, podendo ser colocada como consciência. Esta forma de ser-no mundo, não é propriedade da psicologia, filosofia ou biologia. Mas, pode perfeitamente formular pontes com as mais variadas disciplinas, uma vez que um dos objetivos da psicanálise integral é tratar do Ser em sua totalidade e duas relações com o universo. Assim podemos falar sobre o segundo ponto que procuramos definir como perspectiva deste olha de integralidade.
Quando colocamos em discussão o Ser integral, pensamos imediatamente no “Homem Arquetípico” e suas dinâmicas. Evidentemente é importante frisar que o homem arquetípico aqui tratado nada mais é do que mais um olhar entre outros olhares teóricos. É um mapa que em hipótese alguma deve ser confundido com o território. Cabe inicialmente definir o termo arquétipo. Diz Hillman: “arquetípico pertence a toda cultura, a todas as formas de atividade humana, e não somente aos profissionais que praticam a terapêutica moderna. Pela definição tradicional, arquétipos são as formas primárias que governam a psique” (Hillman.1995:21).
Assim os arquétipos formam a matriz da alma humana, contendo não somente todas as atividades como também sua estrutura biopsicossocial. É neste sentido que nenhum ramo do conhecimento pode se apropriar da totalidade humana, o que não impede de partir de determinados estudos, compreende a totalidade como também integrá-la a um determinado campo do conhecimento. A função do terapeuta integral não é fazer psicoterapia, mas e, sobretudo, compreender e tratar do Ser em toda sua complexidade, sem reduzi-lo a qualquer aspecto específico. A psicanálise integral também não pretende impor nem mesmo um modelo que se defina como totalidade. Pretendemos trabalhar com sugestões a partir de nossa subjetividade, integrando a outros modelos que proponham trabalhar o homem arquetípico. O terapeuta integral exerce qualquer função, seja médicos, psicólogos, assistentes sociais, advogados, biólogo, professor, etc. Não é a profissão que define o terapeuta integral, mas a forma como este percebe o Ser em seus aspetos globais interagindo com todas as partes que o compõe.
Desta forma, propomos uma perspectiva da totalidade da alma, que na medida das pesquisas, descobertas e autodescobertas, pode-se perfeitamente ampliar o que estamos propondo como Ser integral.
Num trabalho de investigação doutoral, propomos que o Homem arquetípico pode ser delineado em três “dimensões”: Histórica, Mítica e Mística. [1].
A Dimensão Histórica corresponde a todos os processos que estão dinamizados pelo sistema identificatório. Vão desde a matriz neurobiológica correspondente ao nosso lado mais primitivo do cérebro, que traz dentro de si todo o aparato instintual, envolvendo inclusive as imagens de nossa ancestralidade até as formações culturais e sociais reproduzidas pela família e demais instituições. Na Dimensão Histórica estão delineados os sentidos de identidade do eu, as emoções primárias e toda gama de ação reflexa. Neste nível também estão situações o que Damásio (2002) denominou de eu autobiográfico e corresponde ao acumulo de experiências vividas pelo sujeito durante toda sua trajetória existencial. Também se inclui nesta perspectiva, a consciência nuclear estudada pelo mesmo autor à luz da neurobiologia e que retomaremos em outra oportunidade.
A Dimensão Mítica na verdade corresponde aos símbolos que dão sentido e significado a existência humana. A linguagem deixa de ser meramente um conjunto de signos para se situar entre o conhecido e o inefável, estando, pois, grávido de sentido que fornece a base de significações e certo equilíbrio para a estrutura psíquica.
Joseph Campbell, mitólogo descreve sobre a importância da dimensão mítica da psique:
A vida de uma mitologia vem da vitalidade de seus símbolos como metáforas transmissoras não apenas de idéia, mas de um senso de participação real nessa realização de transcendência, infinidade e abundância, de que nos falam os autores upanixádicos. Na verdade, o primeiro e mais essencial serviço de uma mitologia é este, o de abrir a mente e o coração à maravilha total de todo ser. E o segundo serviço é cosmológico: representar o universo e todo o espetáculo da natureza, tanto como conhecer a mente como vê o olho como uma epifania.De tal modo que quando o relâmpago lampeja ou o sol poente inflama o céu, sou se vê um gano de pé, alerta a exclamação “Ah” possa ser pronunciada como um reconhecimento da divindade.
(Campbell. 1991:09).

A dimensão mítica é movida pelo senso de busca de significados que expressem a finalidade da existência humana. Sartre, Jung, Campbell, escreveram e investigaram profundamente sobre esta questão. Um significado pode ser conotado desde o um sistema de crenças que tem como base a memória cultural, até o ponto da verdade vislumbrada pelo sujeito em conformidade com seus arquétipos interiores. Nesta perspectiva, as narrativas míticas desempenham forte papel como forma de espelhar e mesmo despertar a alma humana. Num nível mais profundo da busca do significado, o mapa psíquico delineados por outros buscantes, pode facilitar o mergulho na alma e conseqüentemente o sentido existencial que ela poderá proporcionar ao buscante. Num outro nível ainda mais profundo, o conhecedor enxerga a si próprio e outros significados surgirão. Este é o reino do autoconhecimento, ponte para a próxima dimensão da alma.
A Dimensão Mística, como o próprio nome indica, acessa a alma ao incognoscível. A palavra mística vem de mistério. Leonardo Boff, assim define a perspectiva do ermo místico.
Originalmente, a palavra mistério (mysterion em grego, que provém de múein, quer dizer perceber o caráter escondido, não comunicado de uma realidade ou de uma intenção).Não possui um conteúdo teórico, mas está ligada a experiência religiosa, nos ritos de iniciação. A pessoa é levada a experimentar por meio de celebrações, cânticos, danças dramatizações e realizações de gestos rituais, uma revelação ou iluminação conservada por um grupo determinado e fechado.
Mistério não equivale a enigma que, quando decifrado desaparece. Mistério designa a dimensão de profundidade que se inscreve em cada pessoa, em cada ser e na totalidade da realidade e que possui um caráter definitivamente indecifrável. Aquilo que chamamos de realidade apresenta-se incomensuravelmente maior que a nossa razão e nossa vontade de dominar pelo conhecimento. A pessoa humana, a fortiori, é mais do que sistemas de compreensão ou formas de convívio social (Boff. 1994,12-13).
Ora, neste contexto, a dimensão do mistério equivale ao encontro com a profundidade do Ser, que está para além da compreensão, da teoria e dos valores estabelecidos sejam por esta ou aquela doutrina. Neste ponto , o autoconhecimento torna-se o instrumento principal deste encontro, pis para o sujeito se abrir para que as formações místicas da personalidade entre em cena, se faz necessário se despojar de toda variedade de conhecimento,que nada mais é de que acúmulo de experiências e identificações.
Muitos estudiosos têm definido este tipo de encontro, como sendo do domínio da espiritualidade humana. É desta forma que o organizador de “O mais elevado Estado de Consciência”:
Existe um paradoxo na jornada espiritual qual seja: o propósito da nossa jornada. A resposta que buscamos, nada mais é do que aquilo que já somos em essência_ se, a totalidade máxima que é a fonte do vir-a-ser.A iluminação é a revelação da verdade do ser, tradicionalmente chamado de Deus, Ser Cósmico, Ente Supremo, o Um-em-Tudo (aliás, alguns mestres iluminados_ Buda foi um deles_ preferem evitar termos teístas a fim de se comunicar melhor. Seu intento é evitar o profundo condicionamento cultural contido nessa linguagem, que impede a compreensão). Somos manifestações do Ser, mas à semelhança do próprio cosmos, e estamos também no processo de vir-a-ser_ sempre acrescentando, mudando, desenvolvendo-nos e evoluindo para estados mais e mais elevados que expressam eterna e bela perfeição da origem da existência. Assim, não somos apenas seres humanos; somos também seres humanos em transformação. A iluminação consiste em compreender o perfeito equilíbrio entre o ser e o vir-a-ser (White. 1998:15).

A Dimensão Mística está inserida então numa dupla vertente: De acessar o sujeito na em sua própria essência, que lhe é constitutivo da verdade do sujeito, que está para além dos condicionamentos. O segundo ponto é que, a partir do autoconhecimento, é possível acessar a profundeza do Ser e da Realidade Fundamental, que estão para além das palavras e do conhecimento. Este é o território das experiências denominadas de religiosas e transcendentais, na medida em que o reino do simbolismo possibilita ritualizar esta passagem. Estamos num terreno que está além da ciência, da religião e de qualquer outra forma de conhecimento. É a pura experiência.
Na Dimensão Mística estão contidos os níveis Quânticos e propriamente, o Incognoscível ou a Realidade Absoluta. Enquanto que no mundo dos quântas, a consciência cria a realidade, partindo da percepção e dos conteúdos que estão presentes no inconsciente (os arquétipos), o incognoscível é o próprio inconsciente, enquanto vazio pleno, ainda não impregnado por qualquer ordem, conteúdo ou forma. Estamos aqui completamente fora do âmbito atual da ciência, apenas especulados por alguns sábios cientistas ou místicos.

Transferência e Contratransferência.

A Psicanálise Integral manifesta o interessa pela relação transferencial e contra-transferencial, que se estabelece na relação com o terapeuta, educador, professor, família, etc. O objetivo é conectar através do enfoque da transferência, o sujeito do autoconhecimento, no qual poderá estabelecer com o outro uma relação autêntica.
Todavia existe aqui uma distinção entre o conceito de transferência desenvolvido no modelo freudiano[2]. Na perspectiva freudiana, o problema da transferência esteja inserida num contexto de causalidade, que tem na relação parental o protótipo das futuras relações e conseqüentemente, a dinâmica da transferência está ancorada pelo conjunto dessas relações concretas ou fantasmáticas. Embora a família assim como as outras instituições sociais, o palco para o drama existencial, a “tinta onde são escrita” a jornada interior, a dinâmica vivenciada em qualquer contexto já se encontra imaginada pelo “quadro negro” da psique. Em outras palavras, psique e cultura se completam sincronisticamente. Outro ponto importante sobre a transferência, é sobre a natureza da mesma, que na referência da psicanálise freudiana, denota a perspectiva da estrutura edípica. No contexto da psicanálise tradicional, o Édipo desempenha papel central na formação da personalidade e na dinâmica das relações interpessoais. A ênfase adotada na teoria freudiana é na sexualidade, sendo esta a base para que o processo de identificação toma corpo. O “princípio do prazer” e o “princípio de realidade” são adotados nesta perspectiva da sexualidade, embora esta seja ampliada pela abordagem freudiana.
Embora seja adotado na psicanálise integral, a questão da estrutura edípica, esta tem sua conotação ampliada. Em primeiro lugar focalizamos que os mitos expressam formações inconscientes da alma, mas que a maneira como é percebida e sentida pelo sujeito é que vai definir onde o mesmo foi capturado. O mito em si não aponta para essa ou aquela qualidade ou estrutura, tudo depende da percepção. Em segundo lugar, entendemos que não somente o mito de Édipo como qualquer mito contém em potencial os arquétipos organizadores da humanidade, e que a escolha de determinado mito para ser analisado se deve muitas as ressonâncias da narrativa sobre o estudioso.
Sendo assim, podemos dizer que o mito de Édipo contém potencialmente todos os organizadores da humanidade, incluindo a sexualidade, mas não se reduz a esta. A briga pelo poder, a questão familiar, a deificação do herói (Édipo em colona), o masculino e o feminino, e tantas outras variações estão na ordem de interesse da psicanálise integral. Portanto, quanto mais percebermos as variantes do mito, é possível compreender melhor o Homem Arquetípico. A questão da transferência somente poderá ser ressaltada no momento em que ela ocorrer e é neste ponto que determinados mitologemas podem ser trabalhados no contexto clínico ou no processo de educação, sem que seja priorizada previamente essa ou aquela compreensão sobre a estrutura edípica.

Individuação e Autoconhecimento.

A Psicanálise Integral prioriza fundamentalmente o desenvolvimento do potencial humano, denominado de processo de individuação, assim como sua ferramenta essencial que é o autoconhecimento. A individuação é o processo pelo qual a personalidade se realiza. Não se trata de determinar ou normatizar o que consiste esta realização, embora na abordagem arquetípica existam pistas que corroborem a individuação em ermos conceituais. Carl. Gustav Jung tratou a individuação em termos de sínteses dos opostos: inconsciente/consciente, anima/animus, sombra/persona.[3]
Neste sentido preferimos definir a individuação como um processo de inteireza da personalidade, relativização do sujeito e autoconsciência nos níveis de realidade vivenciada pelo indivíduo. Isso implica que a individuação num primeiro nível se expressa na capacidade do sujeito está inteiro em sua ação interna e externa sem que o juízo de valor seja uma tônica a ser pontuada. Num segundo nível, o processo de individuação consiste na capacidade do sujeito em relativizar seu sistema de crenças. Ou seja, neste sentido o processo de individuação se traduz como capacidade de comunicação real com o outro, onde tanto seu desejo como do outro são reconhecidos sem ser imposto. Finalmente, neste trabalho a individuação se caracteriza como a sincronização e autoconsciência dos níveis de realidade vivenciados pelo sujeito, que vai desde a dimensão histórica até a dimensão mística da personalidade. Estas três situações existenciais podem servir como parâmetro para uma consciência individuada (percepção de indivisibilidade do sujeito, que não tem nada haver com individualismo).
O autoconhecimento é o instrumento da personalidade que realiza o processo de individuação. O autoconhecimento consiste na experiência direta e na atenção dos movimentos executados pelo sujeito, sejam estes condensados sob forma de comportamento ou pensamento. Tal observação possibilita que o comportamento que é acionado pelo aprendizado deixe de alimentar os condicionamentos, que operam na subjetividade e no mundo exterior ao indivíduo. Ou seja, a atenção e a compreensão dos processos do pensamento que se traduz nas ações humanas, permitem cessar o repertório da memória para engendrar a verdade da alma e os territórios do incognoscível.

[1] O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma pedagogia da Individuação.
[2] Freud, Sigmund. Obras Completas.Vol. XII. Artigos sobre a Técnica. RJ. Imago.
[3] Jung, Carl.Obras completas. Petrópolis-RJ.Vozes.

Autoconhecimento e formação

O AUTOCONHECIMENTO NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR: UM ENFOQUE SOBRE A PSICOPEDAGOGIA DA INDIVIDUAÇÃO.


LUCIANO LINS



De um modo geral, a formação do professor é na verdade uma formação de conteúdos. Em sua grade curricular existe disciplinas específicas, didática, psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, prática de ensino, etc. No entanto, como se relacionar com os outros professores e com os alunos, pouco ou nada no contexto da formação.
Mesmo nos cursos de especialização, como em psicopedagogia, por exemplo, as disciplinas são voltadas para conteúdos, muito pouco ou quase nada para a relação professor\aluno e muito menos para o desenvolvimento do Ser como um todo, que se denomina nesse trabalho de Processo de Individuação. A individuação implica na expansão do ser e no conhecimento de si mesmo para que possa haver de fato relação autentica com o outro. A educação como exercício de descoberta do indivíduo na coletividade supõe trabalhar todas as dimensões do sujeito, sejam elas físicas, psicossocial, e noética (dimensão do sentido e do significado). Sem essa perspectiva não é possível falar em educação e educadores. O que estamos assistindo é a falta de motivação e significado no contexto da sala de aula e fora dela. Estamos meio que sem perspectivas, vivendo uma crise de valores, pois não sabemos mais para onde ir e o que temos para desenvolver e trabalhar a natureza em conexão com a cultura e a autoconsciência. As aulas tornaram-se monótonas e desprovida da realidade do cotidiano e das necessidades da alma. É preciso, pois, reencantar a educação e a aprendizagem.
Para começar se faz necessário colocar o professor educador em contato consigo mesmo no sentido do oráculo de Delfos: ”Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Este é o prenuncio de um processo auto e hétero formador. Desenvolver metodologias que possibilitem o contato simultâneo entre a subjetividade e objetividade; entre o eu e o outro. E fundamentalmente trabalhar para que a educação seja de fato um veículo para o desenvolvimento das potencialidades do Ser.
Nesta perspectiva podemos definir o que chamamos de desenvolvimento das potencialidades do Ser, contextualizada aqui como Individuação. Individuação é um conceito junguiano que é delineado no sentido de realização da personalidade em sua totalidade. . O arquétipo (matriz universal da personalidade) do Si-mesmo configura o centro desta personalidade total e se expressa através da síntese dos opostos representados em última instância pelo confronto e integração dos opostos.
Em nossa perspectiva o processo de individuação consiste sobremaneira a personalidade tornar-se o Si-mesmo integrada em sua estrutura dinâmica que é a natureza e a cultura mediada pela autoconsciência. Ou seja, o processo de individuação acontece uma sintonia entre a natureza e cultura, onde o sujeito possa fazer escolhas autoconscientes. Por sua fez a autoconsciência, que é a capacidade para perceber a si mesmo, relativizando-se num contexto que pressupõe a percepção em relação ao outro. A autoconsciência é ao mesmo tempo função da consciência que existe em vários níveis, sendo atualmente objeto de estudo tanto das neurociências quanto da psicologia transpessoal. Esta temática será tocada mais adiante.
O autoconhecimento é a função que traz o significado e o sentido existencial tão carente nos dias atuais. Não implica dizer que vivemos num mundo sem mitos, mas que os mitos de certa forma perderam o significado que nos põem em contato com a nossa essência. A educação perdeu esse potencial que precisa ser reencantado. Esse modo de estar-no mundo encontra-se para além dos conteúdos programáticos, das freqüências dos alunos e das avaliações.
J. Krishnamurti coloca a palavra ordem como qualidade do autoconhecimento:
A ordem é necessária em nossa atividade diária; ordem em nossa ação e ordem em nossa relação com os outros. Temos que entender que a própria qualidade da ordem é totalmente diferente daquela disciplina. A ordem se alcança diretamente, aprendendo a respeito de nós mesmos__ não de acordo com algum filósofo ou algum psicólogo. Descobrimos a ordem por nós mesmos quando estamos livres de todo o sentido de compulsão, de todo o sentido do esforço determinado para obter ordem de acordo com um caminho em particular. Essa ordem nasce muito naturalmente. Nessa ordem existe a integridade. É a ordem, não o acordo com algum modelo, e não apenas do mundo externo, que se tornou tão completamente caótico, mas internamente, dentro de nós mesmos, onde não somos claros, onde somos confusos e incertos. Aprender a nosso próprio respeito faz parte da ordem. SE vocês seguirem uma pessoa por mais erudita que ela seja, vocês não serão capazes de entenderem a sim próprios. (Krishnarmurti. 1997:39).

Neste sentido o autoconhecimento não somente está além dos conteúdos programáticos, como também se vincula a busca da verdade pessoa, que não pode ser transmitida pelo professor, pelo educador, pelo psicólogo, ou por qualquer outra autoridade. A função do educador não é de mostrar o caminho, mais e, sobretudo poder conhecer seu próprio caminho para poder não atrapalhar as descobertas do outro. Estamos viciados em buscar respostas nos outros, quer seja nos profissionais, na família, na mídia, na religião ou noutro grupo social. A verdade brota dentro de cada um, quando desistimos de brigar com os nossos conflitos com o objetivo de vender uma imagem de que não somos. O mundo contemporâneo está impregnado desse narcisismo que busca encontrar no consumo de imagens (status, dinheiro, segurança), formas cada vez mais vazias que desvirtua o verdadeiro encontro do ser consigo mesmo e que o outro. “Crer ou descrer equivale a um processo de não-conhecimento, ao passo que entender a característica do pensamento que o vincula ao tempo proporciona uma libertação da qual só pode nascer o descobrimento” . (Krishnarmurti. 1997:19).
Neste contexto, o autoconhecimento é uma ação educativa, no sentido de que a mesma poderá se abrir para outros horizontes além da cultura e do conhecimento. Cultura e conhecimento são condicionamentos adquiridos pelo tempo através da experiência. Este processo envolve, sobretudo memória, repetição ou inibição dos acontecimentos, ancorados pelas idéias ou imagens que o acompanham. Educar numa perspectiva do autoconhecimento é tirar de dentro o sentido existencial. O professor quando educador[1], não deve interferir na verdade do sujeito, seja este sujeito o próprio educador quanto o outro da relação. É neste sentido que se pode falar numa psicanálise integral, posto que somente o sujeito é capaz de se encontrar, não podendo para esse fim, haver qualquer tipo de direcionamento. Krishnarmurti faz referência a uma mente religiosa como veículo para o autoconhecimento. “A mente religiosa é completamente diferente da mente que acredita em religião. A mente religiosa está psicologicamente livre a cultura social; e também, livre de qualquer tipo de credo, de qualquer tipo de reivindicação baseada em experiência ou auto-expressão”. (Krishnamurti. 1997:21).
Ora, a verdade é uma terra virgem dentro desta concepção. Cabe então indagar se é possível uma pedagogia que vislumbre o processo de Individuação. Numa perspectiva da abordagem arquetípica, o processo de individuação pode ser definido em termos simples, como sendo a integração entre a psique inconsciente e consciente, formulada pela síntese dos opostos. Sejam os opostos a Anima, o Animus, a Persona e a Sombra.
A Anima é o equivalente feminino da psique e pode ser definido como o lado intuitivo, sensitivo, emocional da mente humana. O Animus corresponde então ao equivalente masculino da psique humana, sendo definida em termos de racionalidade, força, intelecto, agressividade da mente. A Persona corresponde a parte da personalidade vinculada aos papéis sociais identificados pelo sujeito, servindo parcialmente como forma de sobrevivência. A sombra, ao contrário da Persona equivale ao lado ou potencial reprimido pela consciência social e que busca expressão através dos sonhos, da arte e dos sintomas como forma de alcançar a totalidade psíquica.
Parece então haver uma contradição ao tratarmos sobre autoconhecimento e o processo de individuação, uma vez que o mesmo já se encontra definido, pelo menos no contexto da abordagem arquetípica, e mais precisamente, na abordagem junguiana. Cabe, portanto, redefinirmos o que entendemos por “processo de individuação”.
A individuação nos indica para dois sentidos básicos. O primeiro, diz respeito à capacidade de se tornar humano de forma plenamente realizada. O seguindo do ponto de vista, nos permitir indicar os níveis de consciência da personalidade e sua auto-integração, que é mediada pela dimensão simbólica.
No que diz respeito à capacidade da personalidade de se tornar plenamente realizada, sua orientação e sentido somente pode ser definido pelo próprio sujeito na medida em que vai trilhando por caminhos virgens de sua própria alma. O parâmetro primordial como indicador de tal realização, esta exatamente na forma e grau de conscientização e sua realização interna sincronizada na maneira de estar-no-mundo. Em outras palavras, somente o próprio sujeito pode ser considerado autoridade para se posicionar no mundo interno, cujo espelho “ medidor” é a forma como se conduz no mundo e assumindo suas responsabilidades por tal situação. Isto é, chamar para si a responsabilidade de suas ações subjetivas e objetivas. Isto não tem nada haver com controle, moralidade, repressão, supressão, fuga ou racionalização. Simplesmente viver assumir tudo.
Nesta situação, não faz qualquer sentido pensar a individuação em termos de síntese ou integração de opostos, uma vez que a própria definição de individuação pressupõe uma normatização, uma regra ou mapa estabelecido para a alma. Na perspectiva se estabelecer um mapa, estamos caindo na armadilha da imposição e do condicionamento de quem formulou a teoria sobre o processo de individuação. Nosso olhar contamina, procurando induzir ao sujeito a buscar na psicoterapia ou em outra forma de busca, significados vazios para a realização do Ser. Talvez seja o momento de se refletir sobre a finalidade da psicoterapia e quais são suas possíveis funções.
Numa segunda perspectiva, podemos refletir que o processo de individuação pode indicar determinadas graduações da consciência e nos dar uma maior compreensão do que seja o “Homem Arquetípico”. Nossa compreensão de “homem arquetípico” significa dizer que da mesma forma que universalmente os seres humanos apresentam uma mesmo estrutura “biológica”, o mesmo equivale para sua alma (que pode ser considerada sua contraparte biológica menos densa e mais energética). O que implica dizer, que as descobertas científicas estão ainda se desenvolvendo, e não temos, pois, um homem acabado, ou melhor, conhecido. Assim a individuação é o processo pelo qual o sujeito compreende através de seus símbolos do significado, as várias dimensões ou realidades do Ser. Ou seja, o indivíduo vive de forma consciente e lúcida, a graduação que a consciência experimenta.
Num trabalho de tese de doutoramento[2], discorremos sobre três possibilidades da experiência da realidade da consciência: A dimensão Histórica, a dimensão Mítica e a dimensão Mística.
A dimensão Histórica corresponde ao plano da personalidade que se delimitam pelo processo de identificação e das experiências biográficas. Estas identificações estão situadas desde o nível da ancestralidade até os valores e normais estabelecidas numa determinada cultura. A dimensão Mítica, que também equivale ao nível da alma, corresponde aos símbolos que dão sentido e significados a alma humana. Os sistemas de crenças e os mitos que modulam os comportamentos estão aqui encerrados. No entanto, o mito do significado não implica uma adesão aos valores culturais. O núcleo da personalidade traz em si algo que é ao mesmo tempo coletivo e singular. A questão é colocar em sincronicidade, estas duas perspectivas. Finalmente, a dimensão Mística, corresponde a intuição da alma no que diz respeito ao incognoscível. Aqui não há lugar para crenças, palavras ou formulação de teorias. Toca-se aqui no universo da pura ação e pura percepção. Este nível corresponde ao que alguns psicólogos denominam de nível transpessoal. Estamos na fronteira da ciência com a religiosidade. Isso nada tem haver com a instituição religiosa, que pertence ao âmbito do social. Religiosidade é a capacidade da mente de religar-se a sua própria fonte. Neste sentido, o mundo acadêmico ainda está caminhando a passos bastante lentos. Este assunto será abordado em outras oportunidades.
O que importa é colocar a individuação numa outra perspectiva. A auto-realização é uma trilha que deve ser desvirginada por cada sujeito e o educador apenas poderá facilitar esse processo, buscando procurar seu autoconhecimento. Por outro lado, o Homem arquetípico não é um sujeito acabado, mas que está sempre em processo de descoberta. As três dimensões da consciência, nada mais são do que um mapa, que pode ser perfeitamente deixado para trás, quando não há mais necessidade de se referenciar. Neste sentido, a questão é muito mais acadêmica do que experimental, uma vez que somente o Ser poderá se autodescobrir.

BIBLIOGRAFIA

ANTONIO, Severino. Educação e Transdisciplinaridade. Rio de Janeiro.
Lucerna. 202.
CREMA Roberto. Antigos e Novos Terapeutas. Petrópolis. Vozes. 2002.
JOSSÓ, Marie-Christine. Experiências de Vida e Formação. Lisboa. Educa.
2002.
KRISHNAMURTI, J. A Rede do Pensamento. São Paulo. Cultrix. 1995.
____________. Sobre Deus. São Paulo. Cultrix. 1997.
LELOUP, Jean-Yves. Cuidar do Ser. 2ª edição. Petrópolis. Vozes. 1996.
LINS, Luciano. O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa
Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma Pedagogia da Individuação. Tese de doutorado. Faculdade de psicologia e de Ciências da Educação-UP. 2002.
Pearson, Carol S. O Despertar do Herói Interior. São Paulo. Pensamento. 1995.

[1] Facilitador nas descobertas do educando.
[2] Lins, Luciano. O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma Pedagogia da Individuação. Porto. Faculdade de psicologia e de Ciências da Educação-UP. 2002.

Tuesday, December 06, 2005

A CONSCIÊNCIA HOLOGRÁFICA

A CONSCIÊNCIA HOLOGRÁFICA



RESUMO


A consciência holográfica é um termo designado para se tentar compreender a consciência como um todo inseparado. Ou seja, a consciência sem está focalizada em objeto algum, o que implica não perceber as variadas situações existenciais, porém, neste grau de percepção, a consciência não está fixada em objetos ou situações específicas. A psicologia transpessoa denomina este nível de consciência de “consciência cósmica” e as tradições místicas denominam de Iluminação, Nirvana, Reino, Satori, e outras. A presente reflexão está voltada para a importância da Consciência Holográfica na psicoterapia e na educação, como formas de transformação psicobiossocial e espiritual.


Introdução

Cada vez mais estudiosos da consciência tanto na área da psicologia como na física quântica, biologia, campos da medicina e outras áreas do conhecimento, vem contribuindo com pesquisas e métodos de tratamento para que compreensão e importância da consciência holográfica. Ou seja, a consciência uma, não fragmentada em relação aos fenômenos imanentes e transcendentes. As pesquisas apontam que nesse contexto a consciência tem poderes extraordinários sobre a existência, e que o nível de transformação coletiva pode definir um tipo de educação mais voltada para o Ser e para a vida.
No que diz respeito a nossa formação profissional como psicólogo e professor universitário, vamos tratar da consciência holográfica voltada para o campo da psicoterapia e da educação, lembrando que esta tomada de posição é simplesmente pedagógica, não podendo de modo se restringir a determinada área do conhecimento, uma vez que não existe de fato linha divisória quando estamos nos referindo à consciência holográfica.

Consciência Holográfica

Para compreendermos melhor a definição de Consciência Holográfica, se faz necessário definir antes o que pretendemos dizer sobre a consciência e seus planos de referência. A palavra consciência é que conotado como sendo o observador que opera para além das influências genéticas, sociais e culturais. O que não que dizer separatividade, mas antes, a capacidade de perceber para além das lentes mencionadas. No sonho a consciência aparece como observadora da trama onírica, muito embora não normalmente não interfira nas atividades das personagens envolvidas na trama. Em algumas tradições místicas é denominada de “presença”, para conotar o valor de sua vivida ação, embora descontaminada da maré dos condicionamentos.
Neste contexto pode se indagar onde fica localizada a consciência, que é uma pergunta normalmente efetuada, principalmente pelos estudiosos do cérebro. A resposta para tal questão vem da própria definição da consciência que estamos tratando neste trabalho. Ou seja, muito embora a consciência esteja em conexão com o cérebro, não se pode definir precisamente sua localização, posto que ela engloba e transcende uma possível localização. De um modo geral, na medida em que a consciência é “vista” em determinado nível da realidade, os outros níveis ficarão ocultos ou inconscientes, salvo na experiência da consciência holográfica. O próprio termo localização denota a espacialidade e temporalidade da consciência, o que não sentido no contexto de nosso estudo. O que se pode dizer, é que existem planos da realidade na qual consciência pode entrar em conexão e ser visualizada neste nível, dando a impressão de isolamento e separação. Todavia, quando o observador é desperto de forma integral, temos a consciência holográfica, que sempre esteve disponível, mas que os eventos e objetos que estamos identificados nos impedem de perceber integralmente.
Assim, algumas definições sobre a consciência holográfica já podem ser delineadas. Em primeiro lugar, que a consciência holográfica é a função da inteligência holográfica, que se percebe de forma total, sem emendas e sem separação. Em segundo ligar, quer a uma das características da consciência holográfica (Csa H) é o desapego ou desidentificação dos fenômenos e objetos que estão formalizando determinado nível. Como foi dito anteriormente, isso não implica negar determinados feixes da realidade, porém e o mais importante é não identificar os feixes da realidade com a realidade, que é a conexão entre todos os planos da realidade e o que está alem disso.
Outra questão importante que normalmente vem sendo apontada por alguns estudiosos, é que a consciência faz parte do mundo interior do sujeito, implicando que lá fora existe um mundo exterior. Neste ponto a consciência, simplesmente é, pois não se trata de processo de localização. O mundo denominado interior e exterior está na consciência, sem distinção e sem localização. O problema da localização é de outra natureza, e em outro momento pode ser discutido. O que caracteriza a consciência é a presença do observador ativo, que testemunha nossas ações, mas, não está identificado ou prisioneiro delas.


Consciência e Mente


“Se nos identificamos com a mente, criamos uma tela opaca de conceitos, rótulos, imagens, palavras, julgamentos e definições que bloqueia todas as relações verdadeiras. É essa tela de pensamentos que cria uma ilusão de separação, uma ilusão de que existe você e um outro totalmente à parte” (Tolle, 2002:19). A mente é uma metáfora que pode ser compreendida em termos de tela, na qual projetamos nossos padrões genéticos e culturais, que nos fixam em certa identidade congelada no tempo e no espaço. A mente são as ilusões que criamos e cultivamos para sobreviver em determinado momento da construção da personalidade. No entanto, também é igualmente necessário que as identificações sejam ultrapassadas para se ver com clareza e agir conforme o momento. Essa é uma das características da maturidade, que não tem necessariamente vinculação com a idade cronológica.
A consciência é a presença integral do agora e o observador silencioso que testemunha a mente e os planos da realidade sem ficar identificado. ‘No momento em que o observarmos, sentimos seu campo energético dentro de nós e desfazemos nossa identificação com ele, surge uma nova dimensão da consciência. Chamo isso de Presença. Passamos a ser testemunhas ou observadores do sofrimento. Isso significa que ele não pode mais nos usar, fingindo-se ser nosso eu interior. Então não temos mais nada como alimenta-lo. Aqui está nossa mais profunda força interior. Acabamos de acessar o poder do Agora” (Toller. 2002:41) [1]. O autor propõe que o poder do agora e a consciência são a mesma coisa ou possui a mesma qualidade. Quando a consciência percebe a qualidade holográfica em si mesma, o poder equivale à divindade criadora. Antes de tratarmos dos planos da realidade, tocares sobre a consciência e suas funções.

A Consciência e suas conexões

Conexões Locais

Para definir os termos acima, se faz importante discutirmos os planos da realidade. É fundamental ressaltar que a realidade é uma costura sem emendas, mas como um cristal pode aparentar várias facetas, embora sejam todas as facetas fazem parte do mesmo cristal. As conexões locais são relações estruturas no espaço e tempo pela função da causalidade. Em um outro ângulo de percepção podemos dizer que as conexões locais são redes de conexões vividas pela consciência em um determinado plano da realidade, na qual essa mesma realidade é focada em detrimento de outros níveis do real. Ou seja, quando um plano da consciência está sendo focalizada, os outros níveis ficam inconscientes, com exceção da experiência da consciência holográfica.


Conexões não-locais



Nas conexões não-locais, a função da causalidade não está presente, mas sim, a função que envolve a sincronicidade, que são formações que ocorrem pelo sentido e significado de ressonância, não dependendo de distâncias ou congelamentos estabelecidos pelo tempo e espaço. As conexões não-locais podem ser acessadas pela percepção local, mesmo que não sejam compreendidas em sua existenciabilidade. Por exemplo, na consciência onírica, podem existir vários fenômenos não-locais, como significações simbólicas, premonição, conexões com outros planos, etc. Quando tais fenômenos emergem para a consciência sensorial, poderá haver uma necessidade equivocada de se conotar do ponto de vista da causa e efeito. Ou seja, o equivoco acontece quando tentamos traduzir experiências de determinado plano da realidade em outro que estamos acessando.


Conexões Sinergéticas.


É propriamente o domínio do observador silencioso no contexto da transconexão entre a função local e não local. A interseção experienciada pela consciência é de fato do ponto de vista de nossa definição, uma das formas de atuação da consciência holográfica. Sinergia e a cooperação e harmonia entre as funções da consciência e os planos existências, na qual esse estado de equilíbrio não pode ser obtido pela soma das função ou dos planos da realidade, seu poder vem do vazio pleno. Sinergia é a capacidade de trabalho de todos os potenciais do Ser, que estão sendo observados pela consciência holográfica.

Planos da realidade

A consciência e os planos da realidade são basicamente sinônimos, pois somente podemos falar em planos da realidade através da participação da consciência. Nunca é demais recordar, que tais planos são feitos da mesma matéria da consciência, e somente aparentam separação, a partir da percepção, uma vez, o observador silencioso, enxerga os personagens dos planos do real como sendo parte de um mesmo processo, e que servem como ferramentas para seu trabalho.
Do ponto de vista pedagógico, vamos estabelecer as funções da realidade em termos de plano vertical e horizontal. Trata apenas de um construto para que a mente descritiva possa compreender.

Plano Vertical da Realidade

Plano Arquetípico.

Este é o plano do vazio pleno, no qual todas as possibilidades do universo estão virtualmente sob o poder da consciência holográfica. É a morada do observador silencioso, que dispõe do poder e plenitude da criação. No entanto, é importante ressaltar que o plano arquetípico não tem nada haver com o universo material. Em uma linguagem mais próxima podemos comparar com os campos quânticos do universo subatômico.

Plano da Criação.

A partir do plano da criação, a consciência recolhe no universo virtual, ondas de criação e destruição para construção do universo no qual está inserido. Virtualidade significa imagens reais que a consciência poderá fazer uso para conservação e descontinuidade da bioenergia que vai posteriormente alicerçar o campo das manifestações ou o mundo fenomênico. Antes de criar o mundo, este é planejado, conforme a vibração que deseja a consciência. Porém ainda estamos longe da condensação do desejo da alma.

Plano de Formação.

O plano da formação diz respeito aos padrões pré-colapsados, mas que já estão moldados pelos padrões do inconsciente coletivo (família, cultura, sociedade, etc.) Entretanto, novas formas de percepção do mundo, podem continuar organizando e moldando o indivíduo e a coletividade, a partir da captação do percepto. A bioenergia é mais densa e seus efeitos podem ser sentidos no campo da manifestação.

Plano da manifestação.

É de fato o campo fenomênico, no qual a consciência se manifesta. Nele está a organização genética, cultural e social predominante. Os padrões são mais densos e estáveis, o que não quer dizer imutáveis. Aqui está o arquétipo do reino, no qual as leis e as regras já estão estabelecidas e predominam, dando a sensação de continuidade e linearidade.

Plano Horizontal da realidade.

Consciência sensorial.

É a realidade moldada ou filtrada pela senso-percepção, remetendo a sensação individualidade e identidade do eu. Normalmente o campo sensorial envolve o tempo, espaço e causalidade. Temos a percepção de estarmos despertos e nossa existência é conectada pela aparente concretude que os fatos apontam em nossa interpretação.

Consciência onírica.

Trata-se do estado da consciência dos sonhos e dos estados hipnagógicos que este nível de realidade demanda. Muitas vezes, o estado onírico por ser mais flexível às ações da alma, conota verdadeiras conexões não-locais, que são estados de descontinuidade, o que pode necessitar do mediador simbólico.

Campo simbólico

É a realidade ou estado da consciência movido pelo sentido e significado das coisas, situações e perspectivas existenciais. Trata-se da bioenergia menos concreta ou menos material da forma como conhecemos, no entanto, os padrões de interações já estão dispostos pela cultura, a menos que o sentido venha do âmago da alma.

Estados alterados da csa.

Colocamos neste contexto, os estados de transe, as experiências de quase morte (EQM), as Experiências foras do corpo (EFC) e os estados de expansão da consciência (EEC). Todavia, é importante focar que, rigor a consciência é única, não podendo haver expansão ou retração da mesma. O que ocorre é um tipo de desidentificação com o estado sensorial, onde a identidade do eu é uma referencial fortemente condicionada.


Consciência holográfica.

A consciência holográfica diz respeito ao estado de unidade e não divisão da consciência, no qual o observador silencioso adquire plena percepção de si mesmo e do universo como uma única realidade. Isso não implica que a realidade não tenha diversas facetas, mas que são projeções da mesma origem, criação e bioenergia.








Considerações.



O estudo sobre a consciência e suas conexões tem sido objeto de estudo de várias áreas da ciência, principalmente, a psicologia, biologia, física e neurologia. De um modo geral, os estudos têm convergido para idéia da consciência não vinculada a penas ao cérebro, mas tendo formação holográfica, e não podendo ser localizada simplesmente no tempo e no espaço. Estudos na área da medicina e da psicologia, nomeadamente no processo de cura, vem demonstrando que a consciência holográfica quando desperta leva o sujeito e a coletividade para níveis profundos de poder e criatividade. Importa ainda refletir que despertar a consciência holográfica não é descobrir o que já existe, mas colocar o eu em estado de expansão ou de desidentificação com situações ou objetos que caracterizam a diversidade dos planos da realidade. Dois processos podem colocar a alma na trilha do observador silencioso que conduz a consciência holográfica. O primeiro diz respeito ao desenvolvimento evolutivo da humanidade em níveis de continuidade desde a infância até a velhice. A segunda forma é instantânea e descontinua, não dependendo do desenvolvimento linear da personalidade. A segunda forma de conexão com a consciência integral, pode ocorrer em determinadas experiências específicas ou em situações provocadas através das sociedades iniciáticas, meditação e estados de expansão do eu. Este assunto tema será discutido em momento posterior.

Bibliografia
CAPRA, Fritjof. As Conexões Ocultas. São Paulo. Cultrix. 2002.
__________. A Teia da Vida. São Paulo. Cultrix. 2.000.
_________. E outros. O Paradigma Holográfico. São Paulo. Cultrix. 1995.
MARINO, Raul Jr. A Religião do cérebro. São Paulo. Gente. 2005.
TALBOLT, Michael. O Universo Holográfico. São Paulo. Best Seller. 1991.
TOLLER, Eckhart. O Poder do agora. Rio de Janeiro. Sextante. 2002.




















[1] O Poder do Agora.