consciência holográfica

Wednesday, December 07, 2005

Psicanálise Integral

FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE
INTEGRAL



Definição e Campo.

Quando se fala em psicanálise à tendência imediata é de se reportar a Freud. De certo modo, nada mais natural, uma vez que foi Sigmund Freud o idealizador da psicanálise. Neste sentido, o termo implica não somente uma teoria da personalidade, mas também, um método e um conjunto de técnicas que objetivam o tratamento das neuroses.
Contudo a expressão psicanálise integral, mesmo reconhecendo em Freud seu iniciador, procurar ampliar o leque da pesquisa da psique e também procura ampliar o sentido da metodologia que primordialmente é empregada para facilitar o sujeito na busca do autoconhecimento. Para início se faz necessário definir apalavra psique para que possamos melhor compreender o vocábulo psicanálise integral.
Psique em grega significa alma e é nesta perspectiva que nos propomos a empregar o termo mencionado. Porém o que pretendemos definir a palavra alma. James Hillman, em sua oba Psicologia Arquetípica escreve sobre a alma.
O cultivo da alma é também descrito como imaginar, ou seja, ver ou ouvir por meio de uma imaginação que enxerga a sua imagem através de um evento.Imaginar significa libertar os eventos de sua compreensão literal para uma apreciação mítica. Cultivo da alma, neste sentido, equipara-se com des-literação__ aquela atitude psicológica que suspeita do nível dado e ingênuo dos acontecimentos e o rejeita para explorar seus significados sombrios e metafóricos da alma. (Hillman. 1995:55).

A alma neste sentido não tem valor substancial, mas se caracteriza pela qualidade do olhar que literaliza ou metaforiza os supostos fatos. Na formulação do que denominou Psicologia Arquetípica, escreve Hillman:
A Psicologia Arquetípica sustenta, contudo, que não podemos nunca ser puramente fenomenológicos ou verdadeiramente objetivos. Nunca se está além do subjetivismo dados pelos dominantes das estruturas de fantasia inerentes à alma. Estes controlam as perspectivas subjetivas e as organizam em “instâncias”, de tal modo que a única objetividade que pode ser tornar mais próxima resulta do olho subjetivo voltado para si mesmo, observando seu modo de olhar, examinando sua própria perspectiva com relação aos sujeitos arquetípicos, os quais estão neste momento direcionando nosso modo de ser no mundo dos fenômenos. (Hillman. 1995:51).

A alma é uma qualidade do Ser que percebe a realidade através da imaginação. Não havendo, pois realidade inteiramente subjetiva, a alma confere metáforas e significações que dão colorido e dinâmica existencial.
Nesta perspectiva, a psicanálise integral é solidária com a base poética da psique reencantada por Hillman. Portanto a alma é uma perspectiva, um olhar, uma qualidade da percepção, podendo ser colocada como consciência. Esta forma de ser-no mundo, não é propriedade da psicologia, filosofia ou biologia. Mas, pode perfeitamente formular pontes com as mais variadas disciplinas, uma vez que um dos objetivos da psicanálise integral é tratar do Ser em sua totalidade e duas relações com o universo. Assim podemos falar sobre o segundo ponto que procuramos definir como perspectiva deste olha de integralidade.
Quando colocamos em discussão o Ser integral, pensamos imediatamente no “Homem Arquetípico” e suas dinâmicas. Evidentemente é importante frisar que o homem arquetípico aqui tratado nada mais é do que mais um olhar entre outros olhares teóricos. É um mapa que em hipótese alguma deve ser confundido com o território. Cabe inicialmente definir o termo arquétipo. Diz Hillman: “arquetípico pertence a toda cultura, a todas as formas de atividade humana, e não somente aos profissionais que praticam a terapêutica moderna. Pela definição tradicional, arquétipos são as formas primárias que governam a psique” (Hillman.1995:21).
Assim os arquétipos formam a matriz da alma humana, contendo não somente todas as atividades como também sua estrutura biopsicossocial. É neste sentido que nenhum ramo do conhecimento pode se apropriar da totalidade humana, o que não impede de partir de determinados estudos, compreende a totalidade como também integrá-la a um determinado campo do conhecimento. A função do terapeuta integral não é fazer psicoterapia, mas e, sobretudo, compreender e tratar do Ser em toda sua complexidade, sem reduzi-lo a qualquer aspecto específico. A psicanálise integral também não pretende impor nem mesmo um modelo que se defina como totalidade. Pretendemos trabalhar com sugestões a partir de nossa subjetividade, integrando a outros modelos que proponham trabalhar o homem arquetípico. O terapeuta integral exerce qualquer função, seja médicos, psicólogos, assistentes sociais, advogados, biólogo, professor, etc. Não é a profissão que define o terapeuta integral, mas a forma como este percebe o Ser em seus aspetos globais interagindo com todas as partes que o compõe.
Desta forma, propomos uma perspectiva da totalidade da alma, que na medida das pesquisas, descobertas e autodescobertas, pode-se perfeitamente ampliar o que estamos propondo como Ser integral.
Num trabalho de investigação doutoral, propomos que o Homem arquetípico pode ser delineado em três “dimensões”: Histórica, Mítica e Mística. [1].
A Dimensão Histórica corresponde a todos os processos que estão dinamizados pelo sistema identificatório. Vão desde a matriz neurobiológica correspondente ao nosso lado mais primitivo do cérebro, que traz dentro de si todo o aparato instintual, envolvendo inclusive as imagens de nossa ancestralidade até as formações culturais e sociais reproduzidas pela família e demais instituições. Na Dimensão Histórica estão delineados os sentidos de identidade do eu, as emoções primárias e toda gama de ação reflexa. Neste nível também estão situações o que Damásio (2002) denominou de eu autobiográfico e corresponde ao acumulo de experiências vividas pelo sujeito durante toda sua trajetória existencial. Também se inclui nesta perspectiva, a consciência nuclear estudada pelo mesmo autor à luz da neurobiologia e que retomaremos em outra oportunidade.
A Dimensão Mítica na verdade corresponde aos símbolos que dão sentido e significado a existência humana. A linguagem deixa de ser meramente um conjunto de signos para se situar entre o conhecido e o inefável, estando, pois, grávido de sentido que fornece a base de significações e certo equilíbrio para a estrutura psíquica.
Joseph Campbell, mitólogo descreve sobre a importância da dimensão mítica da psique:
A vida de uma mitologia vem da vitalidade de seus símbolos como metáforas transmissoras não apenas de idéia, mas de um senso de participação real nessa realização de transcendência, infinidade e abundância, de que nos falam os autores upanixádicos. Na verdade, o primeiro e mais essencial serviço de uma mitologia é este, o de abrir a mente e o coração à maravilha total de todo ser. E o segundo serviço é cosmológico: representar o universo e todo o espetáculo da natureza, tanto como conhecer a mente como vê o olho como uma epifania.De tal modo que quando o relâmpago lampeja ou o sol poente inflama o céu, sou se vê um gano de pé, alerta a exclamação “Ah” possa ser pronunciada como um reconhecimento da divindade.
(Campbell. 1991:09).

A dimensão mítica é movida pelo senso de busca de significados que expressem a finalidade da existência humana. Sartre, Jung, Campbell, escreveram e investigaram profundamente sobre esta questão. Um significado pode ser conotado desde o um sistema de crenças que tem como base a memória cultural, até o ponto da verdade vislumbrada pelo sujeito em conformidade com seus arquétipos interiores. Nesta perspectiva, as narrativas míticas desempenham forte papel como forma de espelhar e mesmo despertar a alma humana. Num nível mais profundo da busca do significado, o mapa psíquico delineados por outros buscantes, pode facilitar o mergulho na alma e conseqüentemente o sentido existencial que ela poderá proporcionar ao buscante. Num outro nível ainda mais profundo, o conhecedor enxerga a si próprio e outros significados surgirão. Este é o reino do autoconhecimento, ponte para a próxima dimensão da alma.
A Dimensão Mística, como o próprio nome indica, acessa a alma ao incognoscível. A palavra mística vem de mistério. Leonardo Boff, assim define a perspectiva do ermo místico.
Originalmente, a palavra mistério (mysterion em grego, que provém de múein, quer dizer perceber o caráter escondido, não comunicado de uma realidade ou de uma intenção).Não possui um conteúdo teórico, mas está ligada a experiência religiosa, nos ritos de iniciação. A pessoa é levada a experimentar por meio de celebrações, cânticos, danças dramatizações e realizações de gestos rituais, uma revelação ou iluminação conservada por um grupo determinado e fechado.
Mistério não equivale a enigma que, quando decifrado desaparece. Mistério designa a dimensão de profundidade que se inscreve em cada pessoa, em cada ser e na totalidade da realidade e que possui um caráter definitivamente indecifrável. Aquilo que chamamos de realidade apresenta-se incomensuravelmente maior que a nossa razão e nossa vontade de dominar pelo conhecimento. A pessoa humana, a fortiori, é mais do que sistemas de compreensão ou formas de convívio social (Boff. 1994,12-13).
Ora, neste contexto, a dimensão do mistério equivale ao encontro com a profundidade do Ser, que está para além da compreensão, da teoria e dos valores estabelecidos sejam por esta ou aquela doutrina. Neste ponto , o autoconhecimento torna-se o instrumento principal deste encontro, pis para o sujeito se abrir para que as formações místicas da personalidade entre em cena, se faz necessário se despojar de toda variedade de conhecimento,que nada mais é de que acúmulo de experiências e identificações.
Muitos estudiosos têm definido este tipo de encontro, como sendo do domínio da espiritualidade humana. É desta forma que o organizador de “O mais elevado Estado de Consciência”:
Existe um paradoxo na jornada espiritual qual seja: o propósito da nossa jornada. A resposta que buscamos, nada mais é do que aquilo que já somos em essência_ se, a totalidade máxima que é a fonte do vir-a-ser.A iluminação é a revelação da verdade do ser, tradicionalmente chamado de Deus, Ser Cósmico, Ente Supremo, o Um-em-Tudo (aliás, alguns mestres iluminados_ Buda foi um deles_ preferem evitar termos teístas a fim de se comunicar melhor. Seu intento é evitar o profundo condicionamento cultural contido nessa linguagem, que impede a compreensão). Somos manifestações do Ser, mas à semelhança do próprio cosmos, e estamos também no processo de vir-a-ser_ sempre acrescentando, mudando, desenvolvendo-nos e evoluindo para estados mais e mais elevados que expressam eterna e bela perfeição da origem da existência. Assim, não somos apenas seres humanos; somos também seres humanos em transformação. A iluminação consiste em compreender o perfeito equilíbrio entre o ser e o vir-a-ser (White. 1998:15).

A Dimensão Mística está inserida então numa dupla vertente: De acessar o sujeito na em sua própria essência, que lhe é constitutivo da verdade do sujeito, que está para além dos condicionamentos. O segundo ponto é que, a partir do autoconhecimento, é possível acessar a profundeza do Ser e da Realidade Fundamental, que estão para além das palavras e do conhecimento. Este é o território das experiências denominadas de religiosas e transcendentais, na medida em que o reino do simbolismo possibilita ritualizar esta passagem. Estamos num terreno que está além da ciência, da religião e de qualquer outra forma de conhecimento. É a pura experiência.
Na Dimensão Mística estão contidos os níveis Quânticos e propriamente, o Incognoscível ou a Realidade Absoluta. Enquanto que no mundo dos quântas, a consciência cria a realidade, partindo da percepção e dos conteúdos que estão presentes no inconsciente (os arquétipos), o incognoscível é o próprio inconsciente, enquanto vazio pleno, ainda não impregnado por qualquer ordem, conteúdo ou forma. Estamos aqui completamente fora do âmbito atual da ciência, apenas especulados por alguns sábios cientistas ou místicos.

Transferência e Contratransferência.

A Psicanálise Integral manifesta o interessa pela relação transferencial e contra-transferencial, que se estabelece na relação com o terapeuta, educador, professor, família, etc. O objetivo é conectar através do enfoque da transferência, o sujeito do autoconhecimento, no qual poderá estabelecer com o outro uma relação autêntica.
Todavia existe aqui uma distinção entre o conceito de transferência desenvolvido no modelo freudiano[2]. Na perspectiva freudiana, o problema da transferência esteja inserida num contexto de causalidade, que tem na relação parental o protótipo das futuras relações e conseqüentemente, a dinâmica da transferência está ancorada pelo conjunto dessas relações concretas ou fantasmáticas. Embora a família assim como as outras instituições sociais, o palco para o drama existencial, a “tinta onde são escrita” a jornada interior, a dinâmica vivenciada em qualquer contexto já se encontra imaginada pelo “quadro negro” da psique. Em outras palavras, psique e cultura se completam sincronisticamente. Outro ponto importante sobre a transferência, é sobre a natureza da mesma, que na referência da psicanálise freudiana, denota a perspectiva da estrutura edípica. No contexto da psicanálise tradicional, o Édipo desempenha papel central na formação da personalidade e na dinâmica das relações interpessoais. A ênfase adotada na teoria freudiana é na sexualidade, sendo esta a base para que o processo de identificação toma corpo. O “princípio do prazer” e o “princípio de realidade” são adotados nesta perspectiva da sexualidade, embora esta seja ampliada pela abordagem freudiana.
Embora seja adotado na psicanálise integral, a questão da estrutura edípica, esta tem sua conotação ampliada. Em primeiro lugar focalizamos que os mitos expressam formações inconscientes da alma, mas que a maneira como é percebida e sentida pelo sujeito é que vai definir onde o mesmo foi capturado. O mito em si não aponta para essa ou aquela qualidade ou estrutura, tudo depende da percepção. Em segundo lugar, entendemos que não somente o mito de Édipo como qualquer mito contém em potencial os arquétipos organizadores da humanidade, e que a escolha de determinado mito para ser analisado se deve muitas as ressonâncias da narrativa sobre o estudioso.
Sendo assim, podemos dizer que o mito de Édipo contém potencialmente todos os organizadores da humanidade, incluindo a sexualidade, mas não se reduz a esta. A briga pelo poder, a questão familiar, a deificação do herói (Édipo em colona), o masculino e o feminino, e tantas outras variações estão na ordem de interesse da psicanálise integral. Portanto, quanto mais percebermos as variantes do mito, é possível compreender melhor o Homem Arquetípico. A questão da transferência somente poderá ser ressaltada no momento em que ela ocorrer e é neste ponto que determinados mitologemas podem ser trabalhados no contexto clínico ou no processo de educação, sem que seja priorizada previamente essa ou aquela compreensão sobre a estrutura edípica.

Individuação e Autoconhecimento.

A Psicanálise Integral prioriza fundamentalmente o desenvolvimento do potencial humano, denominado de processo de individuação, assim como sua ferramenta essencial que é o autoconhecimento. A individuação é o processo pelo qual a personalidade se realiza. Não se trata de determinar ou normatizar o que consiste esta realização, embora na abordagem arquetípica existam pistas que corroborem a individuação em ermos conceituais. Carl. Gustav Jung tratou a individuação em termos de sínteses dos opostos: inconsciente/consciente, anima/animus, sombra/persona.[3]
Neste sentido preferimos definir a individuação como um processo de inteireza da personalidade, relativização do sujeito e autoconsciência nos níveis de realidade vivenciada pelo indivíduo. Isso implica que a individuação num primeiro nível se expressa na capacidade do sujeito está inteiro em sua ação interna e externa sem que o juízo de valor seja uma tônica a ser pontuada. Num segundo nível, o processo de individuação consiste na capacidade do sujeito em relativizar seu sistema de crenças. Ou seja, neste sentido o processo de individuação se traduz como capacidade de comunicação real com o outro, onde tanto seu desejo como do outro são reconhecidos sem ser imposto. Finalmente, neste trabalho a individuação se caracteriza como a sincronização e autoconsciência dos níveis de realidade vivenciados pelo sujeito, que vai desde a dimensão histórica até a dimensão mística da personalidade. Estas três situações existenciais podem servir como parâmetro para uma consciência individuada (percepção de indivisibilidade do sujeito, que não tem nada haver com individualismo).
O autoconhecimento é o instrumento da personalidade que realiza o processo de individuação. O autoconhecimento consiste na experiência direta e na atenção dos movimentos executados pelo sujeito, sejam estes condensados sob forma de comportamento ou pensamento. Tal observação possibilita que o comportamento que é acionado pelo aprendizado deixe de alimentar os condicionamentos, que operam na subjetividade e no mundo exterior ao indivíduo. Ou seja, a atenção e a compreensão dos processos do pensamento que se traduz nas ações humanas, permitem cessar o repertório da memória para engendrar a verdade da alma e os territórios do incognoscível.

[1] O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma pedagogia da Individuação.
[2] Freud, Sigmund. Obras Completas.Vol. XII. Artigos sobre a Técnica. RJ. Imago.
[3] Jung, Carl.Obras completas. Petrópolis-RJ.Vozes.

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