consciência holográfica

Wednesday, December 07, 2005

Autoconhecimento e formação

O AUTOCONHECIMENTO NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR: UM ENFOQUE SOBRE A PSICOPEDAGOGIA DA INDIVIDUAÇÃO.


LUCIANO LINS



De um modo geral, a formação do professor é na verdade uma formação de conteúdos. Em sua grade curricular existe disciplinas específicas, didática, psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, prática de ensino, etc. No entanto, como se relacionar com os outros professores e com os alunos, pouco ou nada no contexto da formação.
Mesmo nos cursos de especialização, como em psicopedagogia, por exemplo, as disciplinas são voltadas para conteúdos, muito pouco ou quase nada para a relação professor\aluno e muito menos para o desenvolvimento do Ser como um todo, que se denomina nesse trabalho de Processo de Individuação. A individuação implica na expansão do ser e no conhecimento de si mesmo para que possa haver de fato relação autentica com o outro. A educação como exercício de descoberta do indivíduo na coletividade supõe trabalhar todas as dimensões do sujeito, sejam elas físicas, psicossocial, e noética (dimensão do sentido e do significado). Sem essa perspectiva não é possível falar em educação e educadores. O que estamos assistindo é a falta de motivação e significado no contexto da sala de aula e fora dela. Estamos meio que sem perspectivas, vivendo uma crise de valores, pois não sabemos mais para onde ir e o que temos para desenvolver e trabalhar a natureza em conexão com a cultura e a autoconsciência. As aulas tornaram-se monótonas e desprovida da realidade do cotidiano e das necessidades da alma. É preciso, pois, reencantar a educação e a aprendizagem.
Para começar se faz necessário colocar o professor educador em contato consigo mesmo no sentido do oráculo de Delfos: ”Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Este é o prenuncio de um processo auto e hétero formador. Desenvolver metodologias que possibilitem o contato simultâneo entre a subjetividade e objetividade; entre o eu e o outro. E fundamentalmente trabalhar para que a educação seja de fato um veículo para o desenvolvimento das potencialidades do Ser.
Nesta perspectiva podemos definir o que chamamos de desenvolvimento das potencialidades do Ser, contextualizada aqui como Individuação. Individuação é um conceito junguiano que é delineado no sentido de realização da personalidade em sua totalidade. . O arquétipo (matriz universal da personalidade) do Si-mesmo configura o centro desta personalidade total e se expressa através da síntese dos opostos representados em última instância pelo confronto e integração dos opostos.
Em nossa perspectiva o processo de individuação consiste sobremaneira a personalidade tornar-se o Si-mesmo integrada em sua estrutura dinâmica que é a natureza e a cultura mediada pela autoconsciência. Ou seja, o processo de individuação acontece uma sintonia entre a natureza e cultura, onde o sujeito possa fazer escolhas autoconscientes. Por sua fez a autoconsciência, que é a capacidade para perceber a si mesmo, relativizando-se num contexto que pressupõe a percepção em relação ao outro. A autoconsciência é ao mesmo tempo função da consciência que existe em vários níveis, sendo atualmente objeto de estudo tanto das neurociências quanto da psicologia transpessoal. Esta temática será tocada mais adiante.
O autoconhecimento é a função que traz o significado e o sentido existencial tão carente nos dias atuais. Não implica dizer que vivemos num mundo sem mitos, mas que os mitos de certa forma perderam o significado que nos põem em contato com a nossa essência. A educação perdeu esse potencial que precisa ser reencantado. Esse modo de estar-no mundo encontra-se para além dos conteúdos programáticos, das freqüências dos alunos e das avaliações.
J. Krishnamurti coloca a palavra ordem como qualidade do autoconhecimento:
A ordem é necessária em nossa atividade diária; ordem em nossa ação e ordem em nossa relação com os outros. Temos que entender que a própria qualidade da ordem é totalmente diferente daquela disciplina. A ordem se alcança diretamente, aprendendo a respeito de nós mesmos__ não de acordo com algum filósofo ou algum psicólogo. Descobrimos a ordem por nós mesmos quando estamos livres de todo o sentido de compulsão, de todo o sentido do esforço determinado para obter ordem de acordo com um caminho em particular. Essa ordem nasce muito naturalmente. Nessa ordem existe a integridade. É a ordem, não o acordo com algum modelo, e não apenas do mundo externo, que se tornou tão completamente caótico, mas internamente, dentro de nós mesmos, onde não somos claros, onde somos confusos e incertos. Aprender a nosso próprio respeito faz parte da ordem. SE vocês seguirem uma pessoa por mais erudita que ela seja, vocês não serão capazes de entenderem a sim próprios. (Krishnarmurti. 1997:39).

Neste sentido o autoconhecimento não somente está além dos conteúdos programáticos, como também se vincula a busca da verdade pessoa, que não pode ser transmitida pelo professor, pelo educador, pelo psicólogo, ou por qualquer outra autoridade. A função do educador não é de mostrar o caminho, mais e, sobretudo poder conhecer seu próprio caminho para poder não atrapalhar as descobertas do outro. Estamos viciados em buscar respostas nos outros, quer seja nos profissionais, na família, na mídia, na religião ou noutro grupo social. A verdade brota dentro de cada um, quando desistimos de brigar com os nossos conflitos com o objetivo de vender uma imagem de que não somos. O mundo contemporâneo está impregnado desse narcisismo que busca encontrar no consumo de imagens (status, dinheiro, segurança), formas cada vez mais vazias que desvirtua o verdadeiro encontro do ser consigo mesmo e que o outro. “Crer ou descrer equivale a um processo de não-conhecimento, ao passo que entender a característica do pensamento que o vincula ao tempo proporciona uma libertação da qual só pode nascer o descobrimento” . (Krishnarmurti. 1997:19).
Neste contexto, o autoconhecimento é uma ação educativa, no sentido de que a mesma poderá se abrir para outros horizontes além da cultura e do conhecimento. Cultura e conhecimento são condicionamentos adquiridos pelo tempo através da experiência. Este processo envolve, sobretudo memória, repetição ou inibição dos acontecimentos, ancorados pelas idéias ou imagens que o acompanham. Educar numa perspectiva do autoconhecimento é tirar de dentro o sentido existencial. O professor quando educador[1], não deve interferir na verdade do sujeito, seja este sujeito o próprio educador quanto o outro da relação. É neste sentido que se pode falar numa psicanálise integral, posto que somente o sujeito é capaz de se encontrar, não podendo para esse fim, haver qualquer tipo de direcionamento. Krishnarmurti faz referência a uma mente religiosa como veículo para o autoconhecimento. “A mente religiosa é completamente diferente da mente que acredita em religião. A mente religiosa está psicologicamente livre a cultura social; e também, livre de qualquer tipo de credo, de qualquer tipo de reivindicação baseada em experiência ou auto-expressão”. (Krishnamurti. 1997:21).
Ora, a verdade é uma terra virgem dentro desta concepção. Cabe então indagar se é possível uma pedagogia que vislumbre o processo de Individuação. Numa perspectiva da abordagem arquetípica, o processo de individuação pode ser definido em termos simples, como sendo a integração entre a psique inconsciente e consciente, formulada pela síntese dos opostos. Sejam os opostos a Anima, o Animus, a Persona e a Sombra.
A Anima é o equivalente feminino da psique e pode ser definido como o lado intuitivo, sensitivo, emocional da mente humana. O Animus corresponde então ao equivalente masculino da psique humana, sendo definida em termos de racionalidade, força, intelecto, agressividade da mente. A Persona corresponde a parte da personalidade vinculada aos papéis sociais identificados pelo sujeito, servindo parcialmente como forma de sobrevivência. A sombra, ao contrário da Persona equivale ao lado ou potencial reprimido pela consciência social e que busca expressão através dos sonhos, da arte e dos sintomas como forma de alcançar a totalidade psíquica.
Parece então haver uma contradição ao tratarmos sobre autoconhecimento e o processo de individuação, uma vez que o mesmo já se encontra definido, pelo menos no contexto da abordagem arquetípica, e mais precisamente, na abordagem junguiana. Cabe, portanto, redefinirmos o que entendemos por “processo de individuação”.
A individuação nos indica para dois sentidos básicos. O primeiro, diz respeito à capacidade de se tornar humano de forma plenamente realizada. O seguindo do ponto de vista, nos permitir indicar os níveis de consciência da personalidade e sua auto-integração, que é mediada pela dimensão simbólica.
No que diz respeito à capacidade da personalidade de se tornar plenamente realizada, sua orientação e sentido somente pode ser definido pelo próprio sujeito na medida em que vai trilhando por caminhos virgens de sua própria alma. O parâmetro primordial como indicador de tal realização, esta exatamente na forma e grau de conscientização e sua realização interna sincronizada na maneira de estar-no-mundo. Em outras palavras, somente o próprio sujeito pode ser considerado autoridade para se posicionar no mundo interno, cujo espelho “ medidor” é a forma como se conduz no mundo e assumindo suas responsabilidades por tal situação. Isto é, chamar para si a responsabilidade de suas ações subjetivas e objetivas. Isto não tem nada haver com controle, moralidade, repressão, supressão, fuga ou racionalização. Simplesmente viver assumir tudo.
Nesta situação, não faz qualquer sentido pensar a individuação em termos de síntese ou integração de opostos, uma vez que a própria definição de individuação pressupõe uma normatização, uma regra ou mapa estabelecido para a alma. Na perspectiva se estabelecer um mapa, estamos caindo na armadilha da imposição e do condicionamento de quem formulou a teoria sobre o processo de individuação. Nosso olhar contamina, procurando induzir ao sujeito a buscar na psicoterapia ou em outra forma de busca, significados vazios para a realização do Ser. Talvez seja o momento de se refletir sobre a finalidade da psicoterapia e quais são suas possíveis funções.
Numa segunda perspectiva, podemos refletir que o processo de individuação pode indicar determinadas graduações da consciência e nos dar uma maior compreensão do que seja o “Homem Arquetípico”. Nossa compreensão de “homem arquetípico” significa dizer que da mesma forma que universalmente os seres humanos apresentam uma mesmo estrutura “biológica”, o mesmo equivale para sua alma (que pode ser considerada sua contraparte biológica menos densa e mais energética). O que implica dizer, que as descobertas científicas estão ainda se desenvolvendo, e não temos, pois, um homem acabado, ou melhor, conhecido. Assim a individuação é o processo pelo qual o sujeito compreende através de seus símbolos do significado, as várias dimensões ou realidades do Ser. Ou seja, o indivíduo vive de forma consciente e lúcida, a graduação que a consciência experimenta.
Num trabalho de tese de doutoramento[2], discorremos sobre três possibilidades da experiência da realidade da consciência: A dimensão Histórica, a dimensão Mítica e a dimensão Mística.
A dimensão Histórica corresponde ao plano da personalidade que se delimitam pelo processo de identificação e das experiências biográficas. Estas identificações estão situadas desde o nível da ancestralidade até os valores e normais estabelecidas numa determinada cultura. A dimensão Mítica, que também equivale ao nível da alma, corresponde aos símbolos que dão sentido e significados a alma humana. Os sistemas de crenças e os mitos que modulam os comportamentos estão aqui encerrados. No entanto, o mito do significado não implica uma adesão aos valores culturais. O núcleo da personalidade traz em si algo que é ao mesmo tempo coletivo e singular. A questão é colocar em sincronicidade, estas duas perspectivas. Finalmente, a dimensão Mística, corresponde a intuição da alma no que diz respeito ao incognoscível. Aqui não há lugar para crenças, palavras ou formulação de teorias. Toca-se aqui no universo da pura ação e pura percepção. Este nível corresponde ao que alguns psicólogos denominam de nível transpessoal. Estamos na fronteira da ciência com a religiosidade. Isso nada tem haver com a instituição religiosa, que pertence ao âmbito do social. Religiosidade é a capacidade da mente de religar-se a sua própria fonte. Neste sentido, o mundo acadêmico ainda está caminhando a passos bastante lentos. Este assunto será abordado em outras oportunidades.
O que importa é colocar a individuação numa outra perspectiva. A auto-realização é uma trilha que deve ser desvirginada por cada sujeito e o educador apenas poderá facilitar esse processo, buscando procurar seu autoconhecimento. Por outro lado, o Homem arquetípico não é um sujeito acabado, mas que está sempre em processo de descoberta. As três dimensões da consciência, nada mais são do que um mapa, que pode ser perfeitamente deixado para trás, quando não há mais necessidade de se referenciar. Neste sentido, a questão é muito mais acadêmica do que experimental, uma vez que somente o Ser poderá se autodescobrir.

BIBLIOGRAFIA

ANTONIO, Severino. Educação e Transdisciplinaridade. Rio de Janeiro.
Lucerna. 202.
CREMA Roberto. Antigos e Novos Terapeutas. Petrópolis. Vozes. 2002.
JOSSÓ, Marie-Christine. Experiências de Vida e Formação. Lisboa. Educa.
2002.
KRISHNAMURTI, J. A Rede do Pensamento. São Paulo. Cultrix. 1995.
____________. Sobre Deus. São Paulo. Cultrix. 1997.
LELOUP, Jean-Yves. Cuidar do Ser. 2ª edição. Petrópolis. Vozes. 1996.
LINS, Luciano. O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa
Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma Pedagogia da Individuação. Tese de doutorado. Faculdade de psicologia e de Ciências da Educação-UP. 2002.
Pearson, Carol S. O Despertar do Herói Interior. São Paulo. Pensamento. 1995.

[1] Facilitador nas descobertas do educando.
[2] Lins, Luciano. O Mito do Significado no contexto da Religiosidade numa Narrativa Autobiográfica: Reflexões para uma Pedagogia da Individuação. Porto. Faculdade de psicologia e de Ciências da Educação-UP. 2002.

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